Bucara, Uzbequistão — 8 lugares imperdíveis: guia completo

Passei vários dias em Bucara durante a primeira Bienal de Bucara e reuni oito lugares pelos quais vale a pena fazer esta viagem: da Cidadela do Ark à necrópole de Chor-Bakr, nos arredores. À parte — onde provar o verdadeiro pilaf de Bucara, onde regatear por ikat e onde encontrar um café decente.

Rapariga com xaile suzani junto ao Chor-Minor — quatro minaretes com cúpulas verdes
Chor-Minor. Uma das silhuetas mais peculiares de Bucara — quatro minaretes em vez de dois

Sobre Bucara — o essencial antes de partir

Bucara é uma das cidades mais antigas da Ásia Central, com mais de 2500 anos. Na Idade Média foi capital dos Samânidas, depois do Canato de Bucara e, mais tarde, do Emirado de Bucara. Aqui estudaram os sufis da ordem Naqshbandi, comerciava-se seda, cobre e karakul, e até ao início do século XX a cidade antiga era cercada por uma muralha de barro com onze portões.

Hoje, o centro histórico de Bucara é Património Mundial da UNESCO — mas é um património habitado. Nos domos de mercado trabalham artesãos, ao fim da tarde junto ao Liab-i-Hauz junta-se gente para jogar xadrez. Se chegou via Samarcanda, prepare-se para o contraste: Samarcanda é monumental, com avenidas largas e fachadas restauradas até brilharem. Bucara é estreita, poeirenta, com vielas tortas e gatos nos telhados.

Para se perceber a escala: só no centro histórico de Bucara existem mais de 140 monumentos arquitectónicos. E isto depois das perdas do século XX.

Vista para os domos de mercado e o minarete Kalyan a partir da Madraça de Ulugh Beg
O centro antigo visto da Madraça de Ulugh Beg. Os domos que vê são três mercados cobertos medievais do século XVI: Toq-i Zargaron (joalheiros), Toq-i Telpak Furushon (chapeleiros) e Toq-i Sarrafon (cambistas). Os três continuam em funcionamento

1. Madraça de Abdulaziz Khan — as melhores muqarnas de Bucara

Coloco a Madraça de Abdulaziz Khan em primeiro lugar, ainda que a maioria dos guias a meta a meio da lista — e isso, na minha opinião, é um descuido. A madraça foi construída em 1652 e o seu pishtaq (portal de entrada) é considerado um dos mais elaborados de todo o Uzbequistão. Fica em frente à sua vizinha mais antiga — a Madraça de Ulugh Beg (1417) — e juntas formam um conjunto «kosh-madraça», ou seja, duas madraças de fachadas frente a frente.

A razão principal para entrar são as muqarnas — abóbadas estalactíticas formadas por milhares de pequenas células. Em Abdulaziz Khan estão por toda a parte: sobre a entrada, nos tectos das salas de canto, sobre o mihrab da mesquita. Tecnicamente, a abóbada é complexa: cada célula é calculada para que o contorno geral permaneça circular, e cada uma é pintada à mão com flores, folhas e, por vezes, paisagens ao gosto indiano (Abdulaziz Khan mantinha forte comércio com os Mogóis). Pela complexidade geométrica, lembram a azulejaria portuguesa — só que em três dimensões.

Fachada principal da Madraça de Abdulaziz Khan com pishtaq e torre de canto
Fachada principal.

À esquerda — muqarnas no museu de talha em madeira (parte paga). À direita — abóbada sobre a entrada principal, onde se pode entrar e ficar gratuitamente

Museu de talha em madeira — a parte paga que vale a entrada

No fundo da madraça, atrás do pishtaq principal, há um bilhete separado para uma única sala pequena. Antigamente era a darskhana — a sala de oração e de aulas onde os estudantes da madraça ouviam as lições. Hoje é um museu de talha artística em madeira: ao longo das paredes alinham-se portas esculpidas, portadas, colunas, baús com embutidos e mihrabs — tudo aquilo que os mestres de Bucara fizeram entre os séculos XVII e XIX.

A sala é pequenina, com cerca de dez metros de lado. Em compensação, está tudo à mão de semear: as peças ficam ao alcance do braço, é possível aproximar-se e ver as marcas da goiva, o relevo do ialimi, o entrelaçado do girih. Fica-se vinte minutos diante de uma porta e depois passa-se à seguinte. A entrada custa cerca de 20 000 sum, e é provavelmente o bilhete mais subvalorizado de Bucara.

E, sobretudo — o tecto. Sobre a darskhana pendem muqarnas executadas na técnica kundal: estuque modelado em ganch, pintado à mão e pontualmente dourado. É um dos exemplos mais bem preservados de pintura do século XVII em Bucara — historiadores de arquitectura deslocam-se de propósito para o ver. Sobre o mihrab, as muqarnas formam uma cúpula; nas primeiras horas da manhã, o sol entra pelas frestas e a cúpula fica perceptivelmente mais luminosa do que o resto da sala.

Interior da darskhana da Madraça de Abdulaziz Khan: muqarnas sobre o mihrab e abóbada pintada na técnica kundal
Por dentro do museu de talha em madeira.

Dica: a entrada no pátio da madraça é gratuita; o bilhete (~20 000 sum) só é necessário para o museu de talha em madeira. As primeiras horas da manhã (9h00–10h30) são o único momento em que o sol incide directamente nas frestas sobre a abóbada do mihrab e as muqarnas projectam sombras por todo o tecto. Depois das 11h00 a luz fica plana.

Pátio, hudjras e detalhes — o que ver mais na madraça

A parte gratuita inclui o próprio pátio da madraça com as hudjras em dois pisos (celas dos estudantes), os iwans laterais e os relevos esculpidos nas paredes. Ande devagar — cada nicho é diferente, cada coluna é talhada à mão.

Coluna esculpida e abóbada lateral. O motivo da coluna são estrelas de cinco pontas reunidas num girih (rede geométrica).

Pátio da madraça e fachada lateral. As hudjras (celas dos estudantes) são hoje lojas de recordações

Fragmentos de majólica no pishtaq principal.

Pátio interior da madraça ao pôr do sol, com tendas e vendedores de roupa
O pátio ao pôr do sol. Vende-se aqui chapans (mantos), ikat e cobre — os preços são comparáveis aos do bazar e dá para regatear

Informação prática — Madraça de Abdulaziz Khan

  • Morada: Khoja Nurabad str., em frente à Madraça de Ulugh Beg
  • GPS: 39.7752, 64.4156
  • Horário: 09h00–18h00
  • Entrada no pátio: gratuita
  • Museu de talha em madeira (antiga darskhana): ~20 000 sum (~ €1,40)
  • Tempo de visita: 45–60 minutos para as duas madraças e o museu
  • Melhor luz no museu: 9h00–10h30 da manhã

2. Conjunto Po-i-Kalyan — minarete, mesquita, madraça

Po-i-Kalyan (literalmente «aos pés do Grande») é a praça arquitectónica principal de Bucara. Aqui erguem-se três edifícios visíveis a partir de qualquer telhado da cidade antiga: o minarete Kalyan, a mesquita Kalyan e a Madraça de Mir-i-Arab. Os três são em tijolo cozido, sem azulejaria garrida, e por isso a silhueta resulta especialmente coesa.

O minarete Kalyan foi construído em 1127 — quando Gengis Khan chegou a Bucara, o minarete já tinha mais de um século. Diz a lenda que Gengis Khan ergueu a cabeça para ver o topo, e o gorro caiu-lhe ao chão. O cã ficou tão impressionado com a altura que ordenou que não tocassem no minarete — enquanto destruíam a restante cidade. Tem 48 metros de altura e 9 metros de diâmetro na base. Até ao início do século XX, anunciava-se daqui a hora da oração; nos piores anos, atiravam-se condenados à morte do alto, o que lhe valeu a alcunha sinistra de «torre da morte».

Conjunto Po-i-Kalyan à noite: o minarete Kalyan e o pórtico da mesquita Kalyan iluminados
Po-i-Kalyan à noite. A iluminação está ligada aproximadamente do pôr do sol até à meia-noite. Vale a pena ir de dia e ao final da tarde — de dia, o tijolo parece ocre; com iluminação, vermelho-alaranjado

À esquerda — o minarete Kalyan, com 14 anéis de alvenaria decorada, todos diferentes. À direita — cúpula azul da Madraça de Mir-i-Arab, vista do pátio.

Informação prática — Po-i-Kalyan

  • GPS: 39.7757, 64.4143
  • Acesso à praça: gratuito
  • Mesquita Kalyan: 30 000 sum (~ €2)
  • Subida ao minarete: encerrada a turistas
  • Dica: à Madraça de Mir-i-Arab só pode olhar por fora (não se entra, está em funcionamento)

3. Cidadela do Ark — fortaleza ancestral e residência do emir

O Ark é o edifício mais antigo de Bucara e foi a residência dos seus governantes desde o século V até 1920. Lá dentro funcionavam a sala do trono, mesquita, cavalariças, biblioteca, harém e prisão; chegou a viver lá perto de 3000 pessoas.

Hoje o Ark abriga vários museus: arqueológico, etnográfico, sala do trono e a mesquita do palácio. A muralha exterior impressiona tanto como o conteúdo: até 20 metros de altura, com torres-contraforte arredondadas nos cantos e alvenaria do século XIX, em que se notam camadas sucessivas de restauros.

O Ark ao pôr do sol.

Informação prática — Cidadela do Ark

  • Morada: Praça Registan, Bucara
  • GPS: 39.7777, 64.4148
  • Horário: 09h00–18h00 todos os dias (de Abril a Novembro até às 19h00)
  • Entrada: 60 000 sum (~ €4,20)
  • Tempo de visita: 1h30–2h
  • Dica: vá de manhã (pouca gente) ou ao fim da tarde (a luz na muralha)

4. Mesquita Bolo-Hauz — a «mesquita das quarenta colunas»

A Bolo-Hauz fica em frente ao Ark, do outro lado da Praça Registan. O elemento principal é o iwan (galeria aberta antes da sala de oração), com vinte colunas de madeira esculpidas. Por uma lenda local, é-lhe chamada «mesquita das quarenta colunas»: vinte reais e vinte reflectidas no espelho de água em frente.

As colunas são em nogueira, ulmeiro e choupo; os capitéis são muqarnas talhadas e pintadas à mão. As esbeltas escoras frontais foram acrescentadas só em 1917, quando o tecto começou a ceder. No interior do iwan há um tecto em caixotões de madeira que me pareceu o mais bonito de Bucara: cada caixotão tem o seu próprio motivo pintado.

Iwan da Bolo-Hauz à noite e fragmento de coluna esculpida. As colunas são em nogueira, ulmeiro e choupo; o iwan tem 12 metros de altura

Tecto de madeira pintado do iwan, com mosaico colorido e motivo em estrela ao centro
Tecto em caixotões do iwan.
Sala da cúpula no interior da mesquita, com pintura fina e grande lustre vazado
Cúpula interior da mesquita. A mesquita está em funcionamento — pode-se entrar fora dos horários de oração; senhoras com a cabeça coberta, calçado descalço

Informação prática — Bolo-Hauz

  • Morada: Praça Registan, em frente ao Ark
  • GPS: 39.7780, 64.4138
  • Horário: do nascer ao pôr do sol (mesquita activa)
  • Entrada: gratuita (donativo bem-vindo)
  • Dica: o melhor momento é o pôr do sol, com as colunas reflectidas no hauz

5. Chor-Minor — quatro minaretes em vez de dois

O Chor-Minor fica fora do circuito turístico, num bairro residencial vulgar a leste do Liab-i-Hauz. É um pequeno edifício quadrado com quatro torres-minarete nos cantos — uma composição invulgar para Bucara. Foi mandado construir em 1807 por um rico mercador de origem turcomana, Khalifa Niyazkul, como prenda à família. Em tempos, foi o portal de entrada de uma grande madraça — a madraça desapareceu, o portal ficou.

Cada uma das quatro torres está decorada de forma diferente. Segundo uma versão, os motivos simbolizam quatro grandes religiões: distinguem-se elementos parecidos com a roda budista e com a cruz cristã. No interior há uma pequena sala sufi com cúpula, com excelente acústica para o zikr (canto meditativo dos dervixes).

Chor-Minor: quatro minaretes com cúpulas verdes e entrada em arco no piso inferior
Chor-Minor à luz do meio-dia.

Porta e jardim junto ao Chor-Minor. A gelosia em favo da janela é executada na técnica tradicional panjara, em ganch (gesso) ou argila cozida

Detalhe da porta de madeira esculpida do Chor-Minor — ornamento vegetalista feito à mão
Detalhe da porta em grande plano. A talha em madeira (naqqoshi) é um dos ofícios mais antigos de Bucara; ainda hoje se fazem portas assim

Informação prática — Chor-Minor

  • Morada: Mehtar Anbar Street, Bucara
  • GPS: 39.7770, 64.4256
  • Horário: 09h00–18h00
  • Entrada no pátio: gratuita
  • Subida à cobertura: ~10 000 sum (~ €0,70)
  • Tempo de visita: 20 minutos

6. Sitorai Mokhi-Khosa — o palácio de Verão do último emir

Sitorai Mokhi-Khosa («Palácio semelhante às estrelas e à lua») era a residência de Verão do último emir de Bucara, Alim Khan, a 4 km a norte da cidade antiga. Uma mistura eclética entre Oriente e Ocidente: convivem aqui fogões russos com azulejo, vasos japoneses, muqarnas de Bucara e salas de espelhos à francesa. O emir mandou construir o palácio no início do século XX — formalmente, como casa de Verão; na prática, como um manifesto da «nova Bucara».

No jardim vivem pavões, florescem crisântemos e à beira do tanque há um pavilhão de madeira esculpida que servia de mesquita de Verão. Hoje todo o complexo é museu. Análise detalhada de cada sala e da história do emir Alim Khan no artigo dedicado: Sitorai Mokhi-Khosa — residência de Verão do último emir de Bucara.

Portão monumental de Sitorai Mokhi-Khosa com azulejos e caligrafia árabe
Portão principal do palácio.

Estuque em ganch e fogão de azulejos.

À esquerda — torre-mirante: dali o emir olhava para o hauz do harém. À direita — pavilhão de madeira esculpida à beira do tanque. Não é um quiosque de chá, como tantas vezes se lê nos guias: os crescentes nas cúpulas indicam que o pavilhão servia de mesquita de Verão

Informação prática — Sitorai Mokhi-Khosa

7. Chor-Bakr — a necrópole dos xeiques Juybari

Chor-Bakr é um conjunto memorial do século XVI na aldeia de Sumitan, a 5 km a oeste de Bucara. É a necrópole familiar dos xeiques Juybari — mestres sufis que, no tempo do cã Abdullah Khan II, governavam Bucara de facto. O conjunto arquitectónico (mesquita, khanaqah, madraça e minarete-gémeo do Kalyan) foi construído em 1560, e à sua volta cresceu uma «cidade dos mortos» — um labirinto de hazira, sepulturas familiares a céu aberto.

Vale a pena vir pelo silêncio e pela escala. Há menos turistas do que em qualquer outro ponto de Bucara — em meia hora dentro da necrópole encontra-se talvez um guarda e um par de gatos no muro. Detalhes no artigo dedicado: Chor-Bakr — necrópole dos xeiques Juybari nos arredores de Bucara.

Mausoléu principal de Chor-Bakr na luz do pôr do sol, com duas árvores em frente à fachada
Chor-Bakr ao pôr do sol

Passou um gato ruivo

Chor-Bakr no Outono. Se puder escolher, venha em finais de Outubro ou princípios de Novembro

Informação prática — Chor-Bakr

8. Parque dos Samânidas — mausoléu do século IX e fonte de Job

O Parque dos Samânidas é um quadrado verde a oeste do Ark, onde se encontram dois mausoléus importantes e um pequeno memorial moderno. Coloco-o no fim do roteiro porque é cómodo vir aqui no último dia, ao final da tarde: dar a volta com calma, sentar-me à sombra, deixar assentar as impressões da cidade antiga.

Mausoléu de Ismail Samani

O edifício mais antigo conservado de toda a Ásia Central — construído por volta de 905. Cubo coroado por cúpula, em tijolo cozido sem reboco. O ornamento é um jogo de alvenaria: cada parede surge diferente, conforme o ângulo do sol. Quando os mongóis de Gengis Khan chegaram a Bucara, o mausoléu já estava soterrado em areia, parecendo um montículo — por isso sobreviveu. Só foi desenterrado nos anos 1930.

Mausoléu de Ismail Samani na hora dourada — cubo de alvenaria de tijolo decorada
Mausoléu Samani ao pôr do sol

Chashma-Ayub — a fonte de Job

Chashma-Ayub («fonte de Job») é um mausoléu dos séculos XII–XIV com uma cúpula cónica, atípica em Bucara. Conta a lenda que aqui o profeta bíblico Job bateu com o cajado no chão e fez brotar a fonte que o curou das suas chagas. No interior preserva-se a nascente, e os locais ainda vêm encher recipientes de água. Numa das salas funciona um pequeno museu de abastecimento de água de Bucara — sobre os karizes, os hauz e a luta contra a seca que sempre marcou a vida da região.

Chashma-Ayub (à esquerda) e fonte do parque (à direita).

Memorial moderno

No parque há também um pavilhão memorial moderno — uma colunata semicircular e uma torre central, construção dos anos 2000. Está alinhado com o Mausoléu Samani e, à luz do pôr do sol, formam-se entre os dois longas filas de sombras.

Memorial moderno no Parque dos Samânidas: colunata semicircular e torre na luz do pôr do sol
Pavilhão memorial
Raios do pôr do sol através das copas das árvores no Parque dos Samânidas
Atmosfera do parque numa tarde de Outono.

Informação prática — Parque dos Samânidas

  • Morada: Saiidjon Bobo str., entrada livre
  • GPS: 39.7770, 64.4087
  • Horário: parque — 24 horas, mausoléus — 09h00–17h00
  • Entrada no parque: gratuita
  • Entrada nos mausoléus: 15 000 sum cada (~ €1)
  • Tempo de visita: 60–90 minutos

Onde comer em Bucara: pilaf, achichuk, samsa

Bucara tem muitos restaurantes, mas o meu conselho principal é o restaurante «Bukhara»: numa casa antiga, com toalhas de ikat, louça pintada à mão e vista para a praça do bazar. Na ementa, clássicos uzbeques, mas sem simplificações para turistas: cozinha-se aqui aquilo que se come de facto.

A pedir obrigatoriamente — pilaf de Bucara, que é diferente do de Fergana: o arroz coze-se à parte, não em conjunto com o zirvak; a cenoura é cortada mais fina; e o borrego vai por cima, em pedaços grandes. Sai solto, pouco gorduroso, suave. Para acompanhar — salada achichuk (tomate, cebola, manjericão, pimenta-preta) e chá. O chá preto com limão serve-se aqui em bule de porcelana.

Pilaf de Bucara: arroz solto com cenoura ralada e grandes pedaços de borrego em prato pintado à mão
Pilaf de Bucara.

Achichuk — a salada uzbeque mais simples, que se come em Bucara

Achichuk é apenas tomate, cebola roxa e manjericão. Sal, pimenta-preta, ocasionalmente um fio de azeite — e mais nada. Sem maioneses, sem arranjos. Daí que todo o sabor se jogue nos próprios produtos: aqui, um tomate fraco ou uma cebola amarga não passam despercebidos.

Comi achichuk por todo o lado no Uzbequistão — em Tashkent, Samarcanda, Khiva, em casas de chá de beira de estrada. Mas a melhor que provei foi aqui, em Bucara. Os tomates maduros ao ponto de serem doces; a cebola cortada grosseira e obrigatoriamente roxa e doce (não picante); o manjericão é o rayhan, roxo, acrescentado um minuto antes de servir. Peça-a como entrada antes do pilaf: o arroz pesado em diálogo com uma salada leve, doce-acidulada, é o que limpa o palato entre garfadas.

Salada achichuk — tomate em pedaços grandes e cebola roxa com manjericão numa malga de cerâmica
Aquela achichuk.

Samsa e chá — sequência obrigatória

Samsa com chá: três pastéis triangulares e bule de porcelana sobre toalha estampada
Samsa (pastéis assados de borrego) e chá preto com limão.

Informação prática — Restaurante «Bukhara»

  • Morada: procure no mapa por «Bukhara Restaurant»
  • GPS: ~39.7723, 64.4197
  • Horário: 11h00–23h00
  • Conta média: 100 000–150 000 sum (~ €7–11) por pessoa
  • Dica: reserve mesa para o jantar — é um sítio popular

Onde tomar café — mini-conselho

Em Bucara, o café é mais difícil que o chá — a maior parte das chaikhanas não faz café e, quando faz, é solúvel. De entre os locais onde se bebe um latte ou flat white em condições, dei com uma cafetaria pequena no coração da cidade antiga — com balcão, uma pilha de livros antigos junto à janela e uma atmosfera muito serena.

Copo de vidro com latte sobre tabuleiro de madeira, ao balcão, com livros soviéticos ao fundo
Latte em tabuleiro junto ao balcão. Morada — no mapa. Preço do latte — cerca de 30 000 sum (~ €2,10)

Bónus: Bienal de Bucara — arte contemporânea numa cidade medieval

Apanhei a primeira Bienal de Bucara durante a minha estadia. O tema da edição inaugural era Recipes for Broken Hearts («Receitas para corações partidos»), aludindo à lenda segundo a qual Avicena teria inventado o pilaf como remédio para um jovem apaixonado. Distribuíram-se por todo o centro histórico 70 instalações site-specific de mais de 200 artistas — em caravançarais, madraças e hauz restaurados. Algumas instalações só funcionavam depois do anoitecer.

Instalação nocturna num hauz iluminado: espaço sob cúpula com superfície de água espelhada
Uma das instalações da bienal — paisagem sonora dentro de um hauz restaurado. Só de noite
Suzani com motivo de romã — peça de um projecto têxtil da bienal
Releitura contemporânea do suzani numa das instalações. A romã é motivo tradicional, símbolo de fertilidade no ornamento uzbeque
Pátio com esculturas contemporâneas sobre o fundo de muralhas medievais com iluminação nocturna
Um dos pátios nocturnos da bienal. Se vier a Bucara entre Setembro e Novembro, confira o programa — a próxima edição da bienal está marcada para 2027

Onde comprar recordações em Bucara: domos de mercado, madraças, Pavillon Kalon

Em poucas palavras: Bucara é a melhor cidade do Uzbequistão para fazer compras. Em Samarcanda e Tashkent, as lojas de artesanato estão dispersas — é preciso procurá-las, ir ao bazar, perguntar o caminho. Em Bucara é o oposto: praticamente em cada esquina da cidade antiga há uma loja ou oficina. Não há que ir a lado nenhum — enquanto se percorre Po-i-Kalyan, o Ark, o Chor-Minor e o Liab-i-Hauz, as compras vão acontecendo. É como um bazar coberto, à maneira dos antigos mercados de Lisboa, mas em escala muito maior.

Domos de mercado do século XVI — o cluster principal de recordações

O ponto principal para fazer compras são três mercados cobertos medievais entre o Liab-i-Hauz e Po-i-Kalyan. Foram construídos no século XVI como bazares especializados de várias corporações, e os nomes antigos sobreviveram:

  • Toq-i Zargaron («domo dos joalheiros») — prata, ouro, joalharia
  • Toq-i Telpak Furushon («domo dos chapeleiros») — têxteis, chapans, tubeteikas, suzani, ikat
  • Toq-i Sarrafon («domo dos cambistas») — o mais pequeno, historicamente o local da troca de moeda; hoje também recordações

Os três continuam em actividade. Entra-se sob a cúpula e, debaixo das abóbadas de tijolo, abre-se uma rua de lojas: têxteis, cobre, miniaturas, caixinhas lacadas, cerâmica de Rishtan, lenços de seda. Os domos protegem do calor no Verão e do vento no Inverno — daí que se passem horas a vasculhar.

Conselho principal: regateie — o preço inicial vem quase sempre inflacionado.

Pátio com lojas de recordações, sacos de ikat, camisas e saco em suzani por cima da porta
Loja de recordações

O que comprar: principais ofícios de Bucara

Suzani — bordado de grandes dimensões sobre algodão ou seda. O ofício uzbeque mais reconhecível. Um bom suzani do século XX custa a partir de 200 euros, um antigo a partir de 500. Uma peça grande pode levar até seis meses de trabalho a uma artesã.

Ikat — técnica de tingimento dos fios de seda antes da tecelagem, que dá os característicos padrões «esbatidos». Tecido ikat ao metro a partir de 30 euros; chapan (manto) a partir de 150 euros.

Tesouras-cegonha — tesouras forjadas em forma de cegonha. São feitas em Bucara por uma única forja familiar (a dinastia dos Atauloff). Um par custa 50 000–100 000 sum (~ €4–7) e é a recordação mais autêntica de todas — em mais lado nenhum do Uzbequistão se forjam.

Cobre cinzelado e esmalte — uma tradição que mal sobrevive em alguns lados. As bandejas antigas são melhores que as novas.

Montra com tesouras-cegonha: filas de tesouras forjadas em forma de ave, com longo bico-lâmina
As ditas tesouras-cegonha
Bordadeira de suzani em pleno trabalho: borda sobre tecido esticado com esquema floral
Bordadeira de suzani em trabalho

Pavillon Kalon — alternativa premium ao bazar

Se o bazar cansa (e ao fim de duas horas debaixo dos domos cansa, de facto), há uma alternativa tranquila — o Pavillon Kalon, uma pequena concept store numa casa antiga, junto ao minarete Kalyan. Aqui ninguém regateia nem pressiona. É uma pequena galeria de marcas têxteis locais — ikat, suzani, cerâmica, candeeiros com abat-jours em tecido, joalharia de Bucara. Os preços são mais altos do que nos domos de mercado, mas a apresentação é outra: cada peça vem assinada pelo autor, tudo está disposto como num showroom.

Sala do Pavillon Kalon: mesa comprida com toalha de ikat, tapeçarias de ikat nas paredes
Sala do Pavillon Kalon

Lali Home e esmalte sobre latão feito à mão

Cómoda de madeira com aplicações de ikat e dois candeeiros — um com abat-jour em ikat, outro com base em cerâmica pintada
Candeeiros e cómoda.

Quando ir a Bucara

A melhor altura é Abril–Maio e meados de Outubro a princípios de Novembro. O Verão é tórrido (até 40–45 °C, vento seco) e o Inverno é frio (descendo aos –10 °C à noite). Em Maio florescem as rosas e os damasqueiros; em Outubro, as folhas viram amarelo. A próxima Bienal de Bucara está marcada para 2027 — vale a pena confirmar o calendário mais perto das datas.

Como chegar de Portugal e onde ficar

Avião desde Portugal: não existem voos directos. Os trajectos mais práticos a partir de Lisboa ou do Porto são via Istambul com a Turkish Airlines (uma escala, voo total entre 9h e 11h, ligação até Tashkent ou Samarcanda). Como rotas sazonais, há ainda ligações via Dubai (com a Emirates ou a flydubai) e, em algumas épocas, via Moscovo. Em Tashkent, escolha entre voar para Bucara ou ir de comboio.

Voo doméstico: há voos directos para Bucara a partir de Tashkent — cerca de uma hora no ar, operados pela Uzbekistan Airways, Centrum Air e Silk Avia.

Comboio: o comboio rápido Afrosiyob liga Tashkent, Samarcanda e Bucara. De Tashkent a Bucara são cerca de 3h20 com mudança em Samarcanda; de Samarcanda a Bucara, cerca de 1h20. Reserve com antecedência, sobretudo na época alta. Não há autocarros internacionais práticos a partir da Europa — é o avião que recomendo de Portugal.

Vistos: os cidadãos portugueses podem entrar no Uzbequistão sem visto até 30 dias. Basta o passaporte com pelo menos 6 meses de validade.

Onde ficar: aconselho a cidade antiga — num raio de 500 metros do Liab-i-Hauz ou do minarete Kalyan. Em casas históricas há uma boa quantidade de pequenos hotéis-boutique com pátio interior e iwan; daí sai-se a pé para todos os pontos principais.

FAQ

Quando é a melhor altura para visitar Bucara?

Os meses ideais são Abril, Maio e a segunda metade de Outubro. No Verão faz muito calor (até 45 °C) e o Inverno é rigoroso. Em Maio florescem os damasqueiros; em Outubro, as folhas amarelas dominam a paisagem.

Quantos dias são precisos para Bucara?

No mínimo, dois dias inteiros para a cidade antiga. Mais meio dia para Sitorai Mokhi-Khosa e meio dia para Chor-Bakr. O ideal são três a quatro dias.

Os portugueses precisam de visto para o Uzbequistão?

Não. Os cidadãos de Portugal podem entrar no Uzbequistão sem visto e ficar até 30 dias com fins turísticos. O passaporte deve ter pelo menos 6 meses de validade.

Quanto custa entrar em todos os principais pontos turísticos?

Cidadela do Ark — 60 000 sum; mausoléus do Parque dos Samânidas — 15 000 cada um; Mesquita Bolo-Hauz — gratuito; Chor-Bakr — 15 000; Palácio Sitorai Mokhi-Khosa — 30 000. No total, cerca de 150 000 sum (~ €11) para os principais pontos.

Dá para ver tudo num só dia?

Tecnicamente, sim, mas não faz sentido. Bucara é uma atmosfera, não uma checklist a despachar. Em um dia, dá apenas para Po-i-Kalyan, o Ark e a Bolo-Hauz.

Onde provar o verdadeiro pilaf de Bucara?

Em pequenos restaurantes, não em grandes restaurantes turísticos. O pilaf de Bucara é diferente do de Fergana: o arroz é cozido à parte e a cenoura é cortada mais fina. Peça-o ao almoço, não ao jantar — os locais comem pilaf antes das 14h00.

O que comprar obrigatoriamente em Bucara?

Ikat, suzani e tesouras-cegonha. Estas últimas são a recordação mais autêntica, que não se encontra em mais nenhum sítio.

Vale a pena visitar Bucara no Inverno?

Vale a pena, se estiver preparada para o frio. No Inverno não há turistas, as mesquitas estão vazias e fotografa-se sem filas. Mas o dia é curto e muitos pontos fecham às 16h00.

Como funcionam os pagamentos? Aceitam cartão Visa ou Multibanco?

Os cartões internacionais Visa e Mastercard funcionam em hotéis, restaurantes mais turísticos e algumas lojas, mas não no bazar nem em chaikhanas pequenas. O Multibanco português não funciona — é um sistema fechado de Portugal. Convém levar euros em dinheiro e trocar localmente, ou usar caixas Multibanco internacionais para levantar sum (a moeda local).

De entre os lugares aos quais se quer voltar

De todas as cidades uzbeques, é a Bucara que eu gostaria de voltar primeiro. Pode-se andar três dias seguidos pelas mesmas ruas e descobrir sempre algo novo — uma porta esculpida, um gato, a curva de uma viela. Não venha por um único dia: melhor é reservar três a quatro e dormir, sem hesitar, no centro antigo.

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