Necrópole de Chor-Bakr, Bucara — Guia Completo da Cidade dos Mortos
Dez minutos de carro a partir do centro de Bucara e, em vez das multidões em Poi-Kalyan, encontrei-me a percorrer um complexo inteiro do século XVI praticamente sem ninguém lá dentro. Isto é Chor-Bakr — a necrópole familiar dos xeques Juybar, construída em 1560.

O que é Chor-Bakr e porque se chama “quatro irmãos”
Chor-Bakr significa literalmente “quatro irmãos” — em homenagem a quatro descendentes do Profeta Maomé da linhagem de Abu Bakr, sepultados neste local. O mais importante deles, Abu Bakr Saad, fixou-se na aldeia de Sumitan, perto de Bucara, ainda no século X, e morreu aqui em 970. Os peregrinos começaram a visitar o seu túmulo, e foi assim que o lugar nasceu — muito antes de qualquer um dos edifícios de hoje aqui se erguer.
O conjunto arquitetónico que vemos hoje foi construído entre 1560 e 1563 pelo cã Abdullah Cã II — como prenda à sua mãe. Foi erguida uma mesquita, uma madraça e um khanaqah no local de peregrinação, rodeados por um jardim de ciprestes, plátanos, salgueiros e roseiras. Depois da morte do xeque Khoja Juybari, em 1563, Chor-Bakr passou a ser o cemitério familiar dos xeques Juybar — mestres sufis da ordem Naqshbandi, que governavam de facto Bucara durante o reinado de Abdullah Cã.
Os xeques Juybar eram donos de cidades e bairros inteiros, controlavam o comércio das caravanas e serviam como guias espirituais dos cãs. Em termos de influência, costumam ser comparados ao papel dos jesuítas na Europa do século XVII — uma ordem religiosa com verdadeiro poder político e económico.

As decorações de cinema à entrada
Logo a seguir à entrada central, antes de chegar à mesquita propriamente dita e ao khanaqah, vão deparar-se com umas estruturas estranhas que podem ser confundidas com parte do complexo. Uma muralha de tijolo com torres redondas e ameias, um portão de madeira, um par de carros tradicionais de bois sob telheiros de lona, cestos, jarros de barro. Nada disto é do século XVI. São cenários de cinema — restos das filmagens de uma película histórica.
Chor-Bakr é, há muito, um cenário preferido dos cineastas da Ásia Central: várias séries históricas sobre o Canato de Bucara e a Rota da Seda foram aqui filmadas. Alguns dos cenários (concebidos para parecerem os portões de um caravançarai e uma caravana de mercadores) nunca foram desmontados — hoje funcionam como uma espécie de museu de adereços ao ar livre. Estão convenientemente afastados do complexo principal: os turistas fotografam-nos e seguem em frente, enquanto a necrópole em si permanece quase vazia.


Decorações logo a seguir à entrada principal. A alvenaria de tijolo “parece” antiga, mas tem apenas algumas décadas, não é do século XVI. Os locais dizem que foram aqui rodados vários filmes — não consegui apurar o título exato, perguntem ao guarda no local


O conjunto arquitetónico: khanaqah, mesquita, madraça
Os edifícios principais de Chor-Bakr alinham-se sobre um único eixo e formam um conjunto compacto. Ao centro ergue-se o grande khanaqah (uma casa de retiro sufi), com um portal que se avista de longe. À direita — a mesquita de sexta-feira, com interiores pintados de branco. À esquerda — a madraça. Entre eles, uma pequena praça e o minarete que metade dos visitantes vem aqui ver.
O minarete — um mini-Kalyan
Este minarete redondo de tijolo é uma cópia em escala reduzida do famoso Minarete Kalyan, na própria Bucara. Tem cerca de 18 metros de altura, com uma escada em caracol no interior (fechada ao público). Do ângulo certo, o minarete, a madraça e a cúpula do khanaqah alinham-se na clássica fotografia de Bucara — só que sem as multidões de Poi-Kalyan.


Por dentro do khanaqah e da mesquita
O khanaqah conserva uma enorme sala octogonal, com uma cúpula de muqarnas em favo de mel. O reboco caiu em alguns sítios, as paredes estão manchadas — mas é precisamente este aspeto rude que faz a sala parecer viva, não uma perfeição de museu. A mesquita é o oposto: completamente restaurada, com paredes brancas, pintura ornamental fina em bordeaux e cinza, e um enorme candelabro dourado. A mesquita está ativa — vem cá gente rezar às sextas-feiras.


Cidade dos mortos: a necrópole dos xeques Juybar
Para lá do conjunto principal, o coração de Chor-Bakr é a necrópole em si. É um labirinto de ruelas e pátios, com khaziras — recintos funerários familiares murados, sem teto — espalhados por todo o lado. Dentro das khaziras, sarcófagos de pedra estão dispostos em filas ou isolados. Os caminhos são pavimentados a tijolo em espinha e serpenteiam entre os edifícios de forma tão imprevisível que vão precisar de um mapa para se orientarem.
É esta a famosa estrutura da “cidade dos mortos” que valeu a Chor-Bakr o seu lugar na lista provisória da UNESCO: a necrópole espelha literalmente o traçado de um bairro residencial de Bucara — só que, em vez de casas, há khaziras, e em vez de habitantes, os xeques Juybar e os seus descendentes.



Por dentro de uma khazira típica. Estas lápides chamam-se “sagana”: blocos escalonados de mármore e pedra trabalhada, sem cobertura por cima
Detalhes arquitetónicos
Chor-Bakr recompensa quem caminha devagar e olha para cima. Cada portal de khazira é um quebra-cabeças arquitetónico próprio: nuns, os muqarnas estão densamente encaixados num favo rigoroso; noutros, uma faixa de mosaico em escrita cúfica corre pela aresta; noutros ainda, é só um simples iwan de tijolo, sem ornamento mas com proporções perfeitas. Grande parte da azulejaria original perdeu-se e nunca foi restaurada — e é talvez aí que está o mais valioso: o que estamos a ver não é uma reconstrução de museu, é arquitetura viva do século XVI a usar a pátina de quatro séculos. (Se conhecem Conímbriga ou o templo de Diana em Évora, sabem do que falo: há vestígios que dizem mais por aquilo que o tempo lhes fez do que por aquilo que mostram.)




Os fragmentos sobreviventes de azulejaria dão uma ideia do aspeto original dos portais. Na maioria deles, restam apenas vestígios de mosaico



Lápides e portas antigas
As lápides merecem um parágrafo só para elas. Há centenas em Chor-Bakr — desde simples lajes de pedra até altas estelas negras cobertas de entalhe e caligrafia. As mais antigas foram polidas pelo tempo até ficarem com brilho de espelho. Alguns portais conservam ainda portas de madeira originais dos séculos XVII e XVIII: argolas de ferro forjado, entalhe à mão, tábuas ressequidas.






Vistas de Bucara e o jardim
De algumas khaziras mais elevadas tem-se vista sobre a cidade velha — a cúpula turquesa de uma das mesquitas de Bucara ergue-se acima dos telhados. Serve como bom lembrete de que Chor-Bakr é um subúrbio, não um sítio no meio do nada. Parte do recinto é jardim: plátanos, amoreiras, olmos — no outono, as folhas tornam-se douradas. Mesmo junto à muralha exterior há um lago com patos — bom sítio para se sentar dez minutos antes de partir.






Luz do pôr do sol e detalhes de outono
Cheguei em outubro e Chor-Bakr apanhou-me em pleno outono: folhas amarelas nos plátanos, tijolo cor de mel quente, luz baixa. Não é o sítio mais famoso de Bucara, mas, nesta altura do ano, é um dos mais fotogénicos. Troncos verticais contra portais, grandes planos da folhagem, um gato em cima de uma parede — as fotos quase se compõem sozinhas. Fiquei encantada.


Outubro em Chor-Bakr é um género de fotografia em si mesmo. Amarelo sobre ocre — a minha fotografia obrigatória





Informação prática
Chor-Bakr — o que é preciso saber – Morada: aldeia de Sumitan, 5 km a oeste do centro de Bucara, Uzbequistão – GPS: 39.7549, 64.3556 – Horário: 09:00–19:00 (verão), 09:00–17:00 (inverno), aberto todos os dias – Entrada: 25.000 UZS (~1,85 EUR / ~2 USD) para estrangeiros, mais barato para cidadãos uzbeques – Tempo necessário: mínimo 1h30, idealmente 2 a 3 horas – Casas de banho: sim, no local, básicas – Comida: nada no local, os cafés mais próximos são no centro de Bucara – Google Maps: Necrópole de Chor-Bakr
Como lá chegar
- Táxi a partir do centro de Bucara: 30.000–50.000 UZS (~2,3–3,7 EUR / ~2,5–4 USD) por viagem, 10 a 15 minutos. A opção mais cómoda
- Aplicações Yandex Go / Uklon: ambas funcionam em Bucara, normalmente ao mesmo preço ou mais baratas do que um táxi apanhado na rua
- Marshrutka (mini-autocarro partilhado): a partir da zona do Registan em direção à aldeia de Sumitan, cerca de 5.000 UZS (~0,4 EUR). Para na estrada principal e depois é uma caminhada de 5 minutos até à entrada
- Bicicleta: há aluguer de bicicletas no centro de Bucara, a estrada é plana — mas, no calor de verão, não é boa ideia
- Pedir ao táxi para esperar: é difícil apanhar boleia de regresso a partir de Chor-Bakr. Uma hora de espera custa cerca de 50.000 UZS (~3,7 EUR / ~4 USD)
Como chegar a Bucara a partir de Portugal
Não há voos diretos da Europa Ocidental para Bucara — a maior parte dos viajantes voa primeiro para Tashkent. A partir de Portugal, a opção mais prática é apanhar um voo a partir de Lisboa (LIS) ou do Porto (OPO) com escala em Istambul pela Turkish Airlines, que tem ligação diária a Tashkent; em alternativa, há a Lufthansa via Frankfurt e a Uzbekistan Airways tem voos regulares a partir de Frankfurt, Paris e Londres. Já em Tashkent, segue-se de avião doméstico, comboio rápido (Afrosiyob, ~3h30 desde Tashkent) ou comboio-cama noturno até Bucara. O comboio rápido é a opção mais popular — confortável, com paisagem e fácil de reservar online no site dos Caminhos de Ferro do Uzbequistão. A partir de Samarcanda, o comboio até Bucara demora cerca de 1h30.
Quando ir
A melhor altura é 1h30 a 2h antes do pôr do sol. A luz é dourada, as sombras são profundas e quase não há visitantes (a maioria dos grupos turísticos vem de manhã). O nascer do sol também resulta bem, sobretudo se quiserem fotografias sem ninguém — a cúpula turquesa da velha Bucara, no horizonte, brilha à luz da manhã. O meio do dia é a pior altura: sombras duras e calor.
Com o que combinar a visita
Chor-Bakr combina bem com o mausoléu de Bahauddin Naqshband (12 km a este do centro de Bucara) — o segundo grande lugar de peregrinação sufi da região e o “lar” espiritual da mesma ordem Naqshbandi. Dá para construir um dia inteiro com isto: manhã em Bahauddin, almoço em Bucara e fim de tarde em Chor-Bakr.
Visto
Os cidadãos portugueses podem entrar no Uzbequistão sem visto por 30 dias, tal como os restantes cidadãos da UE, do Reino Unido, Suíça, Japão, EUA, Canadá, Austrália e da maior parte dos países desenvolvidos (informação válida em 2025). Basta um passaporte com pelo menos seis meses de validade — não é preciso e-visa para viagens turísticas curtas.
Dica de fotografia: levem uma objetiva grande angular para os interiores (24–35 mm) e uma teleobjetiva curta (50–85 mm) para os pormenores entalhados e os portais vistos em perspetiva ao longo das ruelas. Não é preciso tripé. Não façam voar drones sem autorização oficial — Chor-Bakr é, ainda assim, um lugar religioso, e os locais não levam isso a bem.
O que é preciso ter em conta
Chor-Bakr é um lugar religioso ativo. Os peregrinos continuam a vir às sextas-feiras rezar junto a lápides específicas. Não é um museu de torniquete, é um complexo vivo — por isso devem:
- vestir-se de forma recatada: calças compridas ou saia, ombros tapados (recomenda-se um lenço na cabeça para as mulheres no recinto, e é obrigatório dentro da mesquita)
- descalçar os sapatos ao entrar na mesquita ou no khanaqah
- não trepar para cima das lápides nem se sentar nas paredes das khaziras
- não fotografar quem está a rezar sem pedir
- falar baixinho — mesmo quando o lugar está vazio
Se quiserem aprofundar, perguntem ao guarda à entrada: por uma pequena gorjeta (negociar no local, normalmente entre 50.000 e 100.000 UZS) ele faz uma visita rápida em russo ou uzbeque. Não vão encontrar aqui um guia que fale inglês — o melhor é contratar um guia em Bucara e combinar a inclusão de Chor-Bakr no roteiro.
FAQ
A opção mais fácil é o táxi a partir do centro — 10 a 15 minutos e cerca de 30.000–50.000 UZS (~2,3–3,7 EUR) por viagem. A marshrutka da zona do Registan é mais barata, mas só os deixa na estrada principal. Peçam ao táxi para esperar, porque é difícil apanhar boleia de regresso a partir de Chor-Bakr.
1h30 a 2h antes do pôr do sol é o ideal — luz quente e quase nenhuns visitantes. O nascer do sol também resulta bem, se quiserem enquadramentos vazios. Evitem o meio do dia, sobretudo no verão: sombras duras e calor a sério.
No mínimo 1h30 para percorrer a necrópole e entrar na mesquita e no khanaqah. Quem é apaixonado por arquitetura ou fotografia, contar com 2h30 a 3h. O complexo é compacto, mas o labirinto de khaziras lá dentro é maior do que parece à primeira vista.
Sim — é uma Bucara completamente diferente: silenciosa, sem multidões, com arquitetura do século XVI em estado quase original. Quem fica dois ou mais dias em Bucara, Chor-Bakr é um sim definitivo. Para uma viagem de um dia, só se gostarem de lugares mais sossegados e menos turísticos.
Não existem voos diretos. A rota mais comum é a partir de Lisboa (LIS) ou do Porto (OPO) com escala em Istambul pela Turkish Airlines até Tashkent; em alternativa, Lufthansa via Frankfurt ou Uzbekistan Airways via Frankfurt/Paris. De Tashkent, o melhor é o comboio rápido Afrosiyob (~3h30) até Bucara, com reserva online.
Para estrangeiros: 25.000 UZS (cerca de 1,85 EUR / 2 USD). Para cidadãos uzbeques é bastante mais barato. Acrescentem a gorjeta opcional do guarda-guia (50.000–100.000 UZS) e o táxi de espera (cerca de 50.000 UZS por hora), se for o caso.
Sem dúvida. A sinalização é mínima, mas não é fácil perderem-se: o conjunto principal alinha-se com a entrada e a necrópole é um labirinto que se quer percorrer a deambular. Um guia só ajuda se quiserem a história completa dos xeques Juybar e da ordem Naqshbandi — sem ele, continua a ser uma ruína bonita e silenciosa para passear.
São adereços que sobraram de uma rodagem de cinema — portões em estilo de fortaleza com torres e carros de bois antigos sob lona. Chor-Bakr é, por vezes, usado como cenário de séries históricas da Ásia Central, e nem todos os cenários são desmontados. Estão afastados do complexo principal, por isso é fácil ignorá-los se só quiserem ver os edifícios genuínos do século XVI.
Não — os cidadãos portugueses (e da maioria dos países ocidentais: UE, Reino Unido, EUA, Canadá, Austrália, Japão) podem entrar no Uzbequistão sem visto por até 30 dias (informação válida em 2025). Basta um passaporte com seis meses de validade. Não é preciso e-visa nem filas no aeroporto para carimbos.
Chor-Bakr é um daqueles sítios a que apetece voltar quando já se está cansada do centro de Bucara. Silencioso, quase sem ninguém, e onde se chega mesmo a ver arquitetura do século XVI sem ter a nuca de outra pessoa no enquadramento.