Gur-e-Amir em Samarcanda: o mausoléu de Tamerlão — guia completo

O Gur-e-Amir fica um pouco afastado das praças principais de Samarcanda — entre o Registão e a cidade velha. Por fora, é uma cúpula azul estriada e dois minaretes; por dentro, é o mausoléu de Tamerlão, onde quase cada centímetro está coberto de ouro.

Sala da cúpula dourada do mausoléu Gur-e-Amir vista por dentro
A sala sob a cúpula, no interior do mausoléu — quase toda a decoração é em ouro

Gur-e-Amir: o túmulo de Tamerlão

«Gur-e-Amir» traduz-se como «túmulo do soberano». É o mausoléu familiar dos Timúridas, e está aqui sepultado o próprio Tamerlão (Timur) — o conquistador que, no século XIV, fez de Samarcanda a capital do seu império.

A construção do mausoléu começou em 1403 — e não para Timur. O edifício foi pensado para o seu neto e herdeiro, Maomé Sultão, que morreu inesperadamente. Dois anos depois, no inverno de 1405, também o próprio Timur morreu, durante uma campanha militar; o seu corpo foi trazido para Samarcanda e sepultado aqui, no edifício ainda inacabado. Quem terminou a obra foi outro neto — Ulugh Beg, astrónomo e governante. Foi com ele que o Gur-e-Amir se tornou o mausoléu da dinastia: além de Timur, repousam aqui os seus filhos Xaruque e Miranxá, os netos Ulugh Beg e Maomé Sultão, e ainda o mestre espiritual de Timur, Mir Sayyid Baraka.

Se os nomes não dizem nada — basta saber uma coisa: é precisamente este mausoléu que se considera o modelo dos túmulos posteriores dos Grão-Mogóis na Índia, incluindo o Taj Mahal.

Fachada do mausoléu Gur-e-Amir com cúpula azul e dois minaretes
A fachada do mausoléu: a cúpula, os dois minaretes e o portal

Por fora: a cúpula, os minaretes e o portal

A cúpula é o que mais se vê de longe. Está revestida de azulejos azuis e turquesa e é formada por dezenas de nervuras verticais, o que lhe dá um aspeto estriado. De cada lado erguem-se dois minaretes com cerca de 30 metros de altura, e a entrada é marcada por um portal alto com mosaicos.

A cúpula e o minarete do lado do jardim — daqui vê-se bem o desenho estriado da cúpula

Entra-se no complexo por um edifício de entrada próprio — um portal alto. Atrás dele abre-se o pátio: uma pequena praça em frente do próprio mausoléu. De manhã já se juntam grupos, mas a multidão não é tão densa como no Registão.

Praça interior do complexo Gur-e-Amir e portal de entrada visto do pátio
A praça em frente do mausoléu — já dentro do complexo. O edifício alto é o portal de entrada, visto do lado do pátio
Abóbada do portal de entrada do Gur-e-Amir com mukarnas, vista de baixo
O mesmo portal por dentro — a abóbada do arco de entrada está preenchida com mukarnas

O complexo visto do pátio e o minarete enquadrado pelo arco do portal

Azulejos e mosaicos do portal

De perto percebe-se como tudo foi feito. Aqui há padrões de dois tipos. A maiólica são azulejos inteiros: pinta-se a peça, cobre-se com vidrado, coze-se e depois assenta-se em fiadas. O mosaico é mais elaborado: partem-se pequenos fragmentos de azulejos coloridos e compõe-se o desenho à mão, como um puzzle, e por isso as linhas saem finas e precisas. Nas paredes do Gur-e-Amir existem os dois.

As abóbadas sobre a entrada estão preenchidas com mukarnas. São células volumétricas em forma de «favo», com que a arquitetura oriental decora nichos e as passagens da parede reta para o arco ou a cúpula. Não têm função estrutural — são pura decoração, mas, graças aos vários níveis e às sombras, o ângulo reto parece dissolver-se. No Gur-e-Amir os mukarnas aparecem duas vezes: por fora, no portal — revestidos de azulejo, e por dentro — inteiramente em ouro.

As abóbadas dos portais de perto. Junto ao teto, uma inscrição caligráfica a contornar a borda

O ornamento é composto por azulejos vidrados de cores diferentes — verde, azul, ocre, branco

Nalguns sítios o azulejo está vivo e intacto, noutros caiu até ao tijolo — vê-se que o edifício tem seis séculos

O interior dourado sob a cúpula

O essencial do Gur-e-Amir está lá dentro. A sala sob a cúpula é revestida a ouro: paredes, abóbadas, nichos — tudo coberto de relevo dourado. À técnica chama-se «kundal»: aplica-se na parede um padrão em relevo de ganch (gesso esculpido) ou papel maché, e por cima doura-se e pinta-se. Por isso, na penumbra, tudo brilha suavemente, e o desenho não é plano, mas tem sombra. Vinda do pátio luminoso, entra-se — e nem logo se sabe para onde olhar.

Se se reparar com atenção, o padrão divide-se em camadas: volutas vegetais, malhas geométricas e faixas com inscrições árabes. As inscrições surgem em dois estilos — a escrita angular cúfica e a caligrafia fluida — e são, na maioria, citações do Alcorão.

A sala de baixo para cima. A luz entra pelas janelas estreitas do tambor da cúpula

A cúpula interior é mais baixa do que a exterior — entre as duas há um espaço vazio, recurso habitual neste tipo de construções

Centro da cúpula dourada do Gur-e-Amir com roseta e suporte do candelabro
A roseta no centro exato da cúpula interior

Os mukarnas em grande plano. Cada «favo» é um elemento à parte, e está tudo dourado

O teto dourado e a faixa de caligrafia por baixo dele

Grande plano: aquela mesma escrita cúfica — angular, quase como um ornamento

Os cenotáfios de Tamerlão e dos Timúridas

No centro da sala, atrás de uma baixa grade de mármore, estão os cenotáfios. Um pormenor importante: não são as sepulturas em si. Os túmulos verdadeiros ficam na cripta, sob o pavimento, e em cima estão apenas as lápides comemorativas. Sobre a sepultura de Timur assenta uma grande pedra de jade verde-escuro; segundo a tradição, foi trazida por Ulugh Beg, e julga-se ser um dos maiores blocos inteiros de jade do género.

Outro facto que se recorda com frequência: em 1941, uma expedição científica abriu o túmulo. O antropólogo Mikhail Guerasimov reconstituiu o rosto de Timur a partir do crânio — e confirmou que ele coxeava (daí a alcunha «Tamerlão» — «Timur, o coxo»).

A sala dos cenotáfios. As lápides estão vedadas, circula-se pelo perímetro

A grade em torno dos cenotáfios chama-se «panjara» — é entalhada de modo que a luz desenhe um padrão no chão

Portas antigas e talha

Nos nichos do complexo conservam-se portas de madeira antigas — escurecidas, cobertas de talha miúda. Umas estão decoradas com caligrafia, outras com motivos vegetais.

Portas nos nichos laterais. A talha é miúda e conservou-se surpreendentemente bem

À esquerda, uma porta mais clara; à direita, um grande plano da talha em madeira

A parte de cima das portas — o tímpano entalhado e o painel com uma inscrição

Não é só madeira: as inscrições também foram esculpidas no ganch — o estuque entalhado local

O que há em redor

Atrás do mausoléu conservam-se fundações escavadas — o Gur-e-Amir foi outrora parte de um complexo maior, com madraça e khanqah, dos quais restam apenas as bases de tijolo. Poucos chegam aqui, mas o lugar é tranquilo, e daqui vê-se bem como a cúpula se ergue sobre toda a redondeza.

Fundações de tijolo escavadas no pátio do complexo Gur-e-Amir
Fundações de construções que não chegaram aos nossos dias. Turistas, quase nenhuns

Informação prática

  • Morada: Rua Bustonsaroy, Samarcanda (zona do Registão)
  • GPS: 39.6486, 66.9690
  • Horário: aproximadamente 09:00–19:00, mais alargado no verão; à noite o edifício fica iluminado
  • Entrada: cerca de 50 000–75 000 UZS (~4–6 €) para estrangeiros, de preferência em dinheiro
  • Tempo de visita: 30–60 minutos chegam
  • Visto: os cidadãos da UE não precisam de visto para o Uzbequistão (isenção até 30 dias)

Como chegar ao Gur-e-Amir

  • A partir de Portugal: voos de Lisboa ou do Porto para Tasquente (via Istambul) e, depois, o comboio rápido Afrosiyob até Samarcanda (~2 h)
  • Do Registão: a pé, 10–12 minutos, com indicações pelo caminho
  • Da estação ferroviária de Samarcanda: táxi, 15–20 minutos (~15 000–20 000 UZS)
  • De Tasquente: comboio rápido «Afrosiyob» até Samarcanda (~2 horas) e, depois, táxi
  • De táxi pela cidade: o mais prático é a aplicação Yandex Go — sai mais barato do que negociar na rua

FAQ

Quem está sepultado no Gur-e-Amir?

Tamerlão (Timur), os seus filhos Xaruque e Miranxá, os netos Ulugh Beg e Maomé Sultão, e ainda o mestre espiritual de Timur, Mir Sayyid Baraka. É o mausoléu familiar da dinastia Timúrida.

Quanto custa a entrada no Gur-e-Amir?

Para estrangeiros, cerca de 50 000–75 000 UZS (aproximadamente 4–6 €). Os bilhetes compram-se no local; convém levar dinheiro, porque o terminal nem sempre funciona.

É preciso visto para visitar o Uzbequistão?

Os cidadãos da União Europeia, incluindo os portugueses, não precisam de visto para estadias até 30 dias. Basta um passaporte válido.

Quando é melhor visitar?

De manhã, à hora de abertura, ou ao fim da tarde — é a meio do dia que chegam mais grupos turísticos. À noite, o mausoléu fica bonito com a iluminação.

De quanto tempo se precisa para a visita?

Normalmente chegam 30–60 minutos. A sala sob a cúpula é pequena, mas dá vontade de demorar lá um pouco.

Como chegar ao Gur-e-Amir?

Do Registão, são 10 minutos a pé. Pela cidade, o mais prático é chamar um táxi pela Yandex Go. De Tasquente, o comboio rápido «Afrosiyob» e, depois, táxi.

É mesmo o túmulo verdadeiro de Timur?

Os cenotáfios da sala são comemorativos. Os túmulos verdadeiros ficam na cripta, sob o pavimento, e os visitantes não têm acesso a ela.

Vale mesmo a pena entrar?

Sim. Por fora, o Gur-e-Amir é bonito, mas o essencial — o interior dourado sob a cúpula — só se vê por dentro.

Vale a pena ir

O Gur-e-Amir é um daqueles pontos de Samarcanda por que é fácil passar ao lado se seguirmos apenas pelo roteiro mais badalado. E é pena: por fora é só um belo edifício de cúpula azul, mas o principal — a sala dourada — só se revela lá dentro. Reserve meia hora, entre e, sobretudo, levante a cabeça.

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