Topli Do, Sérvia – aldeia de montanha sob o Midžor na Stara Planina
Topli Do é um dos lugares com mais atmosfera da Sérvia, uma verdadeira máquina do tempo. Uma velha aldeia de montanha onde as casas são de barro, pedra e madeira, os telhados são feitos de lajes de pedra e pelos quintais andam ovelhas e cabras. Caminha-se pela rua e parece que se entrou num velho filme a preto e branco sobre a vida na aldeia, só que a cores. Vivem aqui permanentemente cerca de trinta e cinco pessoas, o asfalto acaba na primeira casa e, mais para cima, em direcção ao Midžor, o ponto mais alto da Sérvia, já não há aldeias.

Onde fica Topli Do
Topli Do fica no leste da Sérvia, nos montes da Stara Planina, quase na fronteira com a Bulgária. A Stara Planina é a parte sérvia dos montes Balcãs, a cordilheira que deu nome a toda a península. De Pirot demora-se cerca de uma hora a chegar, e é a última aldeia da estrada: para lá dela só há trilhos e o Midžor, a montanha mais alta do país.
O nome traduz-se por «vale quente», embora aqui só faça calor no Verão. A aldeia é antiga, a maioria das casas tem cem anos ou mais, e foi classificada no seu conjunto como monumento protegido – não edifícios isolados, mas tudo junto, com palheiros e muros. Há poucos habitantes. No início dos anos 2000 eram pouco mais de cem; hoje vivem aqui o ano inteiro umas trinta e cinco pessoas. No Verão chegam os familiares e a aldeia anima-se um pouco.
Vem-se aqui por duas coisas. A primeira são as próprias casas: construção de montanha tão antiga já quase não resta em mais lado nenhum da Stara Planina. A segunda são as cascatas. À volta da aldeia há mais de trinta, mais do que em qualquer outro lugar da Sérvia.
Mas o principal aqui não são as casas nem as cascatas, é a sensação. Em Topli Do não há uma única construção nova, nem letreiros, nem carros nas ruas. Só paredes de barro, fumo das chaminés, ovelhas atrás dos muros e o som dos chocalhos. Tudo parece indicar que a equipa de filmagem foi almoçar e volta já. Sente-se isto melhor no início do Outono, e mais abaixo explico porquê.

A estrada pelo desfiladeiro «Mali Kolorado»
De Pirot é preciso chegar à aldeia de Temska, e daí parte uma estrada estreita de asfalto ao longo do rio Temštica. Este troço chama-se «Mali Kolorado» – o pequeno Colorado – por causa das rochas vermelhas e do desfiladeiro profundo. A estrada é estreita, em alguns sítios é difícil cruzar com outro carro, mas o piso está em bom estado e um carro normal passa sem problemas.
O desfiladeiro funciona como uma passagem. Durante meia hora conduz-se entre rochas vermelhas sem uma única casa, a rede do telemóvel desaparece e, quando a estrada finalmente sai para o vale, o mundo moderno ficou algures para trás. O asfalto acaba na aldeia; a partir daí só há ruas de terra e trilhos. Depois da chuva ficam castanho-avermelhadas por causa do barro local – o mesmo com que foram erguidas as paredes das casas.
O mais prático é deixar o carro à entrada da aldeia, junto ao etno-centro, e seguir a pé. Uma hora ou hora e meia chega para toda a aldeia, se se espreitar pelos quintais. Não há pressa nenhuma. Ande devagar, pare junto a cada muro e escute. Ouve-se apenas o rio, as galinhas e os chocalhos das ovelhas.

O que ver em Topli Do
Casas com telhados de lajes de pedra
As casas de Topli Do foram construídas com o que havia à mão: embasamento de pedra, estrutura de madeira, paredes de barro com palha e cal por cima. Os telhados eram cobertos com lajes finas de pedra extraídas ali mesmo, nas montanhas. Restam poucos telhados assim na Stara Planina, mas aqui estão em muitas casas e palheiros. Quem conhece as aldeias de xisto da serra da Lousã reconhece logo o princípio: a mesma pedra do sítio, assente em camadas, a fazer de telha.
A cal descascou em muitas paredes e por baixo vê-se o barro alaranjado – numa casa assim percebe-se facilmente como está feita, um pouco como nas casas de taipa do Alentejo. Alguns edifícios estão vazios, mas a maioria dos quintais está habitada: há roupa a secar, lenha empilhada, um tractor parado. É esta combinação – paredes descascadas, um quintal com vida e o silêncio à volta – que cria a sensação de filme antigo. Não é um museu onde tudo foi retocado, mas uma aldeia onde nada mudou em setenta anos.



Os tais telhados de lajes de pedra
De lado vê-se toda a construção: o piso inferior de pedra tosca, por cima vigas de madeira com barro entre elas. Construía-se assim em toda a Stara Planina e nas montanhas búlgaras vizinhas, mas na maioria das aldeias as casas antigas foram há muito substituídas por outras de tijolo. Em Topli Do isso não aconteceu – a aldeia fica demasiado longe das estradas e das cidades.





Casas de ambos os lados do rio
As hortas aqui começam logo junto aos muros de pedra. Plantam-se pepinos ao longo das paredes e, no fim do Verão, as ramas com flores amarelas caem para a rua.


Pepinos nos muros

Ovelhas, cabras e um burro nos quintais
A principal actividade em Topli Do é a pastorícia. Na Primavera os pastores levam os rebanhos para as pastagens de altitude sob o Midžor e vivem lá em cabanas todo o Verão; no Outono trazem as ovelhas de volta à aldeia. Em Setembro os rebanhos já estão cá em baixo e há ovelhas nos currais de quase todas as casas antigas.
Por isso vale a pena vir à aldeia no início do Outono. No Verão está vazia e silenciosa, as ovelhas estão na montanha e os donos com elas. Em Setembro tudo volta ao seu lugar: rebanhos nos quintais, gente a tratar do feno junto aos palheiros, fumo sobre os telhados ao fim da tarde e cabras a serem tocadas pelas ruas. Nestas semanas a aldeia tem o aspecto que tinha há cem anos.
Espreitar para os quintais por cima do muro é normal aqui, mas convém cumprimentar primeiro. Duas palavras em sérvio – «dobar dan» – e os donos costumam eles próprios mostrar os animais. Na aldeia quase ninguém fala inglês.



Setembro – as ovelhas voltaram da montanha
Nos palheiros guardam-se as cabras. Cada uma tem um chocalho ao pescoço – é por ele que os donos as encontram na montanha.




O velho tractor IMT é outra marca destas terras. Fabricavam-se na Jugoslávia desde os anos sessenta e nas aldeias de montanha continuam a trabalhar.


Velho tractor jugoslavo IMT
O etno-centro junto ao rio
À entrada da aldeia, na confluência de dois ribeiros, fica o etno-centro de Topli Do – duas casas antigas restauradas, uma pérgola e uma pequena ponte de madeira sobre o rio. É o único lugar da aldeia preparado para turistas: paredes brancas, telhados de telha, uma pequena piscina. Aqui pode-se pernoitar, comer por encomenda prévia e deixar o carro.
É também daqui que partem os trilhos para as cascatas. A ponte sobre o rio leva à outra margem, à parte velha da aldeia.

Informações práticas – aldeia de Topli Do
- Onde: município de Pirot, parque natural da Stara Planina, leste da Sérvia
- GPS: 43.3398546, 22.6797886
- Altitude: cerca de 750 m
- Distância de Pirot: 33 km, cerca de 1 hora de carro
- Entrada: livre, a aldeia é habitada
- Quanto tempo: 1,5-2 horas para a aldeia, um dia inteiro com as cascatas
- Loja: uma pequena, com horário irregular – leve comida e água
- Google Maps: ligação


Ruas da aldeia
Cascatas e caminhadas à volta de Topli Do
Nos arredores da aldeia há mais de trinta cascatas. Vale a pena destacar três percursos. No Outono têm menos água do que na Primavera, mas a floresta à volta está amarela e alaranjada e nos trilhos não há ninguém.
Cascata de Pilj (Piljski vodopad) – a cerca de quatro quilómetros da aldeia, na direcção de Dojkinci, com uma queda de água de uns sessenta metros. O trilho é fácil, cerca de uma hora em cada sentido. No Verão tem pouca água; a maior parte é na Primavera e depois das chuvas.
Kaluđerski skokovi – uma cascata em degraus com mais de duzentos metros de altura total, a mais alta da Sérvia. De Topli Do são cerca de seis quilómetros a subir pelo desfiladeiro, 2-3 horas em cada sentido. O trilho está marcado, mas é íngreme e molhado em alguns troços – é preciso calçado a sério.
Midžor – pico com 2169 metros, o ponto mais alto da Sérvia. A subida a partir de Topli Do ocupa um dia inteiro: o desnível é superior a mil e quatrocentos metros. Muitos fazem um circuito pelo refúgio de Babin Zub, cerca de vinte e sete quilómetros.
Dica: A Organização de Turismo de Pirot (TO Pirot) organiza caminhadas com guia às cascatas e ao Midžor. Se for por conta própria, descarregue um mapa offline com antecedência: nos desfiladeiros a rede desaparece.
Onde ficar e comer
Na própria aldeia a escolha é pequena, mas existe. O etno-centro de Topli Do – duas casas antigas recuperadas em pedra, madeira e barro, com cozinha, terraços sobre o rio e um sítio para grelhados. Há ainda algumas famílias que alugam quartos e casas inteiras, sobretudo no Verão. Restaurantes não há: no etno-centro pode encomendar-se o pequeno-almoço e o jantar com antecedência; o resto leva-se de casa.
Informações práticas – alojamento
- Etno-centro Topli Do: casa para 8 pessoas, a partir de €22 por noite por pessoa (cerca de 2 600 RSD), com pequeno-almoço €32, meia pensão €42
- Kuća Stojanovića: quatro apartamentos para 4-7 pessoas, cada um com cozinha e terraço próprios
- Reservas: através do selo.rs ou directamente por telefone, o inglês resolve-se com um tradutor
- Alternativa: dormir em Pirot (muitas casas de hóspedes a partir de €20-30) e ir a Topli Do por um dia
Para comer bem, o melhor é Pirot. Na cidade faz-se o queijo kačkavalj e tecem-se tapetes, e há várias boas kafanas – restaurantes tradicionais sérvios. A caminho da aldeia, em Temska, também há um par de sítios para petiscar.
Como chegar a Topli Do
Topli Do é um lugar para quem viaja de carro. Não há transportes públicos até à aldeia: o autocarro de Pirot só chega a Temska, e depois são dezoito quilómetros pelo desfiladeiro. Sem carro próprio ou alugado resta apenas o táxi a partir de Pirot, e isso já não é tão prático.
Todas as distâncias abaixo são de carro e a referência é sempre Pirot; de lá até à aldeia há um único caminho, por Temska e pelo desfiladeiro do Temštica.
- De Pirot: 33 km, cerca de 1 hora. Se mesmo assim for sem carro, o táxi custa aproximadamente 3 000-4 000 RSD (€25-35) por trajecto; combine o regresso com antecedência
- De Niš: cerca de 75 km até Pirot pela auto-estrada E80 (1 hora), depois mais uma hora até à aldeia. Em Niš há aeroporto e aluguer de carros
- De Belgrado: cerca de 300 km até Pirot pela auto-estrada via Niš, 3,5-4 horas, mais uma hora até à aldeia
- De Sófia (Bulgária): cerca de 100 km até Pirot pela fronteira Kalotina-Gradina, 1,5-2 horas, mais uma hora até à aldeia
A estrada pelo desfiladeiro é estreita mas asfaltada, e serve para qualquer carro ligeiro. Na aldeia o asfalto acaba – a partir daí só a pé. No Inverno o desfiladeiro pode estar fechado por causa da neve. Pode ir-se de Maio a Outubro; a melhor altura é Setembro e o início de Outubro.
Dicas
- Ir no início do Outono – em Setembro os rebanhos já estão na aldeia, os quintais têm vida, as encostas começam a amarelecer e não há turistas nenhuns. No Verão a aldeia está meio vazia; na Primavera há mais água nas cascatas, mas menos vida nos quintais
- Saia de manhã – a aldeia e uma cascata cabem num só dia, se arrancar de Pirot por volta das nove
- Calçado: mesmo sem caminhada até às cascatas, as ruas da aldeia são de terra e, depois da chuva, de barro
- Dinheiro vivo: aqui não aceitam cartões e não há multibanco. O mais próximo fica em Pirot
- Combine com Pirot (fortaleza Momčilov grad, museu dos tapetes) ou com Temska (mosteiro de São Jorge, século XIV) – ambos ficam a caminho
- Tempo: na montanha estão alguns graus a menos do que em Pirot e pode chover a qualquer momento. Casaco na mochila
- Nos quintais vivem pessoas: pergunte antes de passar para lá do muro
De carro: 33 quilómetros pela aldeia de Temska e pelo desfiladeiro do rio Temštica, cerca de uma hora de viagem. Não há transportes públicos até à aldeia; o autocarro só chega a Temska. Sem carro resta o táxi a partir de Pirot.
No início do Outono, em Setembro ou na primeira metade de Outubro. Os rebanhos voltam da montanha, há de novo ovelhas e cabras nos quintais, a floresta nas encostas amarelece e não há turistas. Na Primavera as cascatas têm mais água, mas a aldeia está mais vazia. No Inverno a estrada pelo desfiladeiro pode estar fechada.
Para a aldeia em si, hora e meia a duas horas de passeio sem pressa. Com a caminhada até à cascata de Pilj, meio dia; com Kaluđerski skokovi ou o Midžor, um dia inteiro.
Casas antigas de barro e pedra com telhados de lajes de pedra, quintais com ovelhas e cabras, o etno-centro na confluência dos rios e, nos arredores, as cascatas de Pilj e Kaluđerski skokovi e o pico Midžor.
Sim, no etno-centro (duas casas antigas recuperadas) ou em casas de hóspedes particulares. A noite custa a partir de €22 por pessoa. Não há restaurantes; a comida encomenda-se com antecedência ou leva-se de casa.
Para a aldeia, não. Para as caminhadas até às cascatas e ao Midžor o guia não é obrigatório, mas a organização de turismo de Pirot organiza saídas em grupo, o que é prático para quem não costuma andar na montanha por conta própria.
Sim, se lhe interessa a Sérvia rural tal como ela é. É uma das poucas aldeias da Stara Planina onde a construção antiga se conservou por inteiro, e chega-se lá de carro normal.
Em jeito de conclusão
Em Topli Do não há lojas de recordações, cafés com vista nem placas a indicar os pontos de interesse. Há trinta e cinco habitantes, as suas ovelhas, casas com cem anos e montanhas à volta. Bastam duas horas aqui para começar a parecer que também se faz parte deste filme antigo: caminha-se pela rua de barro, cumprimenta-se a dona da casa junto ao muro, deixa-se passar o rebanho. É um bom destino para um dia a partir de Pirot, e ainda melhor para ficar uma noite, ouvir a aldeia ao fim da tarde, quando recolhem o gado, e de manhã partir para as cascatas.