Ogoh-Ogoh em Bali: o desfile de monstros antes do Nyepi

Uma vez por ano, na noite anterior ao Ano Novo balinês, a ilha inteira sai à rua com demónios gigantes de bambu e papel-maché. Passei esse dia na estrada entre Ubud e Denpasar — e acabou por ser um dos festivais mais intensos que já vi na Ásia.

Cena de batalha Ogoh-Ogoh — macaco branco a atacar um crocodilo gigante num desfile de rua em Bali
O macaco branco contra o crocodilo — uma cena dos contos balineses de Tantri. Por dentro, apenas bambu, papel-maché e meses de trabalho manual

O que é o Ogoh-Ogoh — a noite dos monstros antes do dia do silêncio

Compreender uma cultura alheia sem uma imersão profunda e sem viver muito tempo ao lado dela é sempre difícil. É como ouvir música numa língua estrangeira: a melodia prende-nos e enche-nos de emoção, as palavras entrelaçam-se nela como mais um instrumento — mas o sentido escapa-nos, e muitas vezes acaba por ser bem diferente do que parece, se julgarmos apenas pelo som. E, no entanto, há alturas em que é precisamente o som que importa mais do que as palavras. O Ogoh-Ogoh é, para mim, exatamente esse caso. Esta festa pode «ouvir-se» sem tradução: através do frenesim que se acende na noite do desfile; através dos meses de trabalho minucioso e do esforço coletivo em que participa o bairro inteiro — dos mestres artesãos às crianças; através do empenho comum que une as pessoas em torno do seu monstro; através de um simbolismo compreensível sem qualquer conhecimento de hinduísmo. Basta um olhar para a figura à nossa frente.

Os Ogoh-Ogoh são figuras gigantes de demónios que os balineses constroem durante meses e depois transportam pelas ruas numa única noite. O desfile realiza-se na véspera do Nyepi — o Ano Novo balinês segundo o calendário lunar Saka. A própria noite chama-se Pengerupukan, e é aí que está o grande contraste da festa: uma noite de estrondo, fogo e multidões — e, na manhã seguinte, a ilha para por completo durante 24 horas. Nem o aeroporto funciona.

As figuras representam os Bhuta Kala — as forças negativas e os vícios humanos no hinduísmo balinês: a ganância, a ira, a inveja. O sentido do ritual é simples: dar forma visível a tudo o que é mau, transportá-lo pelas ruas para que os espíritos malignos entrem nas figuras — e depois queimá-las. A ilha entra no novo ano purificada.

Curiosamente, a tradição nesta forma é bastante recente. A construção em massa dos ogoh-ogoh só começou nos anos 1980, quando o governador de Bali, Ida Bagus Mantra, tornou o desfile parte oficial das cerimónias de Ano Novo. Em quarenta anos, transformou-se no principal acontecimento do ano para a juventude balinesa — algo entre o Carnaval (pensem nos carros alegóricos gigantes de Torres Vedras), o Halloween e um concurso de arte.

Desfile Ogoh-Ogoh em Denpasar à noite — demónio gigante envolto em fumo vermelho por cima da multidão
Desfile noturno no centro de Denpasar. O fumo dos archotes e a iluminação colorida fazem parte do espetáculo
Demónio Ogoh-Ogoh cor de laranja com coroa dourada e língua de fora em frente a um templo balinês
Um rakshasa clássico — demónio da mitologia hindu. De dia, as figuras ficam junto aos templos à espera da noite

Quando se realiza o desfile: datas até 2029

O Nyepi segue o calendário lunar Saka, por isso a data muda todos os anos — normalmente em março. O desfile Ogoh-Ogoh realiza-se sempre na noite da véspera.

  • 2026: desfile — 18 de março, Nyepi — 19 de março (ano 1948 do calendário Saka)
  • 2027: desfile — 7 de março, Nyepi — 8 de março
  • 2028: desfile — 25 de março, Nyepi — 26 de março
  • 2029: desfile — 14 de março, Nyepi — 15 de março

As procissões começam por volta das 18h00–19h00 e prolongam-se até à meia-noite. Mas todo o dia da véspera também faz parte da festa: as figuras são expostas nas ruas desde a manhã, e à tarde começam as procissões infantis e das aldeias.

O Nyepi começa às 6 da manhã e dura exatamente 24 horas. As regras principais: não sair do hotel ou da villa, não fazer barulho e não acender luzes fortes — e aplicam-se também aos turistas. O aeroporto de Denpasar encerra por completo. A rede móvel pode ser limitada, mas o Wi-Fi deverá continuar a funcionar — confirme com o hotel antes do check-in.

Como se fazem os monstros

Dentro de cada figura há uma estrutura de bambu e rotim, atada na forma do futuro monstro. Por cima colam-se camadas de papel segundo a técnica do papel-maché, depois aplica-se massa, pinta-se e veste-se a figura. O cabelo é feito de fibra vegetal tingida, tecido e penas. Nas melhores figuras, a pele está trabalhada ao ponto de mostrar rugas e veias — de perto percebe-se que é trabalho manual ao nível da adereçaria de teatro.

Na década de 2010, muitos passaram a usar esferovite — é mais fácil de esculpir. Mas desde 2015 as autoridades de Bali proibiram a esferovite nos ogoh-ogoh de concurso: ao arder é tóxica, e a festa, na sua essência, é sobre purificação. Por isso, hoje voltaram a usar-se o bambu, o papel e os materiais naturais.

Detalhes de perto: a pele com rugas e pregas é papel-maché em múltiplas camadas; as coroas e os adornos são talha e dourados

Quem constrói as figuras é a juventude de cada banjar — a comunidade de bairro, a unidade básica da vida balinesa. As associações de jovens chamam-se «sekaa teruna», e para elas o ogoh-ogoh é uma questão de prestígio: toda a vizinhança discute qual é o monstro mais impressionante. O trabalho demora entre um e cinco meses, e o dinheiro é angariado por toda a comunidade. No fundo, esses meses de trabalho conjunto já são parte da festa: o desfile é apenas o final.

Equipa de jovens sekaa teruna a posar ao lado do seu Ogoh-Ogoh na rua
Os sekaa teruna — a equipa do bairro — com a sua obra

Os últimos retoques são dados no próprio dia do desfile: retoca-se a pintura, ajeita-se o cabelo, fixam-se os adornos. Encostam-se escadas e andaimes às figuras — de outra forma, é impossível chegar à cabeça de um monstro de cinco metros.

A manhã antes do desfile: escadas, andaimes e os últimos ajustes

A escala da competição é a sério: só em Denpasar, em 2026, inscreveram-se 223 figuras no concurso municipal, das quais foram escolhidas as 16 melhores para o festival final Kasanga (Kasanga Festival), junto à estátua de Catur Muka. O prémio é de 50 milhões de rupias (cerca de 2 800 €) para o primeiro lugar, e cada finalista recebe ainda 30 milhões (cerca de 1 700 €) para a construção.

Ogoh-Ogoh em forma de Garuda com asas e o número de concurso 021 numa rua durante o dia
Número de concurso no pedestal — a figura participa na competição municipal

Quem representam: deuses, demónios e heróis dos contos

O clássico do género são as personagens da mitologia balinesa. Rangda, a rainha das bruxas leyak, com presas, olhos esbugalhados e a língua de fora. Os rakshasas — gigantes devoradores de homens do «Ramayana». Os nagas, os guerreiros-macacos e o Garuda — a ave mítica à qual é dedicada, em Bali, a estátua mais alta da Indonésia. Quase todas as figuras estão congeladas em poses dinâmicas: um salto, um golpe, um ataque — apesar de por dentro haver apenas bambu e papel, e de a estrutura pesar centenas de quilos.

Grande plano de uma cabeça de monstro Ogoh-Ogoh gigante com presas, olhos esbugalhados e cabelo de fibra natural
Uma cabeça de ogoh-ogoh do tamanho de uma pessoa. O cabelo é de fibra vegetal tingida, as presas são esculpidas à mão

Por trás da maioria das figuras há uma história concreta, e não apenas a fantasia do artesão: a equipa escolhe o tema ainda antes de começar a construção, e nos concursos o júri avalia não só a execução, mas também a filosofia da obra. Para sentir a festa não é preciso conhecer estas histórias — mas, conhecendo-as, é mais interessante observar. Também aparecem deuses. A figura de muitos braços, com tridente e arco, imóvel sobre uma perna por cima do adversário derrotado com cabeça de búfalo, é Durga a vencer o demónio Mahishasura: uma das grandes narrativas hindus sobre a vitória sobre o mal, representada da Índia a Java muito antes de existirem os ogoh-ogoh.

Deusa Durga azul de muitos braços em Ogoh-Ogoh, de pé sobre o demónio-búfalo Mahishasura derrotado
Durga a derrubar o demónio-búfalo Mahishasura. A deusa equilibra-se numa perna — toda a cena assenta numa estrutura escondida

Outra camada são os contos. Os balineses cresceram com as histórias de Tantri, a versão local do «Panchatantra» indiano, e os heróis destas fábulas tornam-se regularmente ogoh-ogoh. A cena do crocodilo com o macaco branco — a da capa deste artigo — vem precisamente daí: no conto, o crocodilo parece temível, mas o macaco engana-o com astúcia.

O javali cor-de-rosa com espinhos de porco-espinho é, muito provavelmente, Bawi Srenggi, o demónio-javali do mito balinês. Segundo a lenda, era um guardião celeste que cortejou a deusa do arroz Dewi Sri, foi amaldiçoado e transformou-se num javali que devasta os arrozais. Já o gigante com um sapo como toucado remete para o conto de Godogan — o sapinho mágico nascido por bênção de Shiva: no final da história, transforma-se num príncipe. Os ogoh-ogoh de rãs não são uma piada, mas um tema respeitado: uma figura inspirada neste conto venceu o concurso de toda a regência de Badung em 2025.

Ogoh-Ogoh do demónio-javali Bawi Srenggi com espinhos de porco-espinho numa plataforma de bambu
Bawi Srenggi — o demónio-javali, devastador dos arrozais. Cerdas de espinhos, flor atrás da orelha — segundo o cânone das estátuas dos templos balineses
Ogoh-Ogoh gigante com um sapo como toucado, inspirado no conto do sapo Godogan
O gigante com um sapo na cabeça — referência ao conto do sapinho mágico Godogan

Um género à parte é a sátira. Para os balineses, os vícios humanos são os mesmos bhuta kala, forças malignas, só que em forma humana. O avô barrigudo, esparramado numa cadeira com os olhos revirados e a língua de fora, é uma caricatura da preguiça e da embriaguez. O enredo mais inesperado que vi foi um demónio de seis braços com nagas aos ombros, a alcançar um surfista em cima da onda: a força do oceano contra o homem — um tema bem balinês na forma mais contemporânea.

Ogoh-Ogoh satírico de um velho barrigudo esparramado numa cadeira com a língua de fora
Personagem satírica: a preguiça e a embriaguez também são bhuta kala, só que em forma humana
Demónio Ogoh-Ogoh de seis braços com serpentes naga erguido sobre um surfista numa onda
O demónio de seis braços com nagas aos ombros alcança o surfista — um enredo moderno em forma tradicional
Figura Ogoh-Ogoh sombria de capuz preto com rosto de caveira
A figura de capuz preto tem a altura de um prédio de dois andares — a franja é de folhas de bananeira secas
Demónia gigante cinzenta Ogoh-Ogoh por cima de uma cena com Garuda de pé sobre uma tartaruga
Composição de várias figuras: a giganta cinzenta e, em baixo, Garuda de pé sobre uma tartaruga
Demónio alado Ogoh-Ogoh a saltar para agarrar uma figura humana com cabos elétricos ao fundo
O demónio alado está suspenso numa estrutura escondida — a figura parece voar

O dia da véspera: as aldeias expõem os monstros desde a manhã

Se chegar a qualquer aldeia na manhã anterior ao Nyepi, os ogoh-ogoh já estão nos cruzamentos e junto aos templos — sobre grelhas de varas de bambu, nas quais serão carregados à noite. À volta, retocam-se os detalhes, dispõem-se as oferendas, as mulheres transportam cestos de fruta. É a altura tranquila para observar as figuras de perto e sem multidões.

Nos pátios dos templos, as figuras alinham-se em grupos inteiros — cada uma com a sua grelha de bambu para o transporte

A manhã antes do desfile: as figuras já estão nas padiolas de bambu. O tecido axadrezado preto e branco, o poleng, é o símbolo do equilíbrio entre o bem e o mal

Demónio Ogoh-Ogoh vermelho de juba preta erguido sobre mulheres em traje tradicional balinês
A comunidade da aldeia reúne-se junto à sua figura. As oferendas já estão dispostas na plataforma
Demónio Ogoh-Ogoh preto e musculado num pedestal esculpido com portões de templo cor de laranja
O demónio preto com adornos prateados — a equipa do bairro investiu meses de trabalho nos detalhes
Oferendas balinesas canang sari — cestinhos entrançados com flores no pavimento
Canang sari — as oferendas diárias de flores e arroz. Antes do Nyepi, enchem as ruas em quantidade
Gigante Ogoh-Ogoh vermelho deitado, com um pequeno demónio laranja e uma torre do relógio atrás
O gigante deitado — uma pose rara para um ogoh-ogoh. Ao lado, estátuas douradas e a torre do relógio do templo da aldeia

De Ubud a Denpasar: procissões em cada aldeia

Eu estava alojada em Ubud, mas decidi ir ao grande desfile da noite em Denpasar — e essa viagem revelou-se tão interessante como o próprio desfile. Saímos por volta das 17h00 e, logo à saída de Ubud, as ruas estavam cheias da antecipação de algo grandioso. Nas bermas, aqui e ali, erguiam-se figuras enormes de monstros — aquelas mesmas que durante meses estiveram escondidas nos templos e atrás de cortinas escuras, e que agora eram finalmente postas à vista. Nalguns sítios já as levantavam e instalavam nas plataformas, para as carregarem até às ruas principais dos seus bairros. De todo o lado tocava música, e as equipas descansavam antes do desfile.

A estrada de Ubud em direção a Denpasar atravessa uma cadeia de aldeias — Mas, Batuan, Sukawati, Celuk, Batubulan — e, à tarde, cada uma delas organiza a sua própria procissão. Eu ia de mota e parava de dez em dez minutos: a seguir a uma curva, crianças carregavam um pequeno demónio; a seguir a outra, os adultos manobravam um gigante de cinco metros por baixo dos cabos elétricos.

Dito isto, não é obrigatório ir a lado nenhum. Ubud tem o seu próprio grande desfile: as colunas dos banjares vizinhos convergem para o palácio real Puri Saren Agung, no centro da cidade, e as figuras de Ubud são consideradas das mais primorosas da ilha — afinal, é a capital artística de Bali. Se estiver alojado em Ubud, basta sair à noite para a rua principal. Eu escolhi Denpasar pela escala, mas pelo caminho vi como Ubud e as aldeias intermédias se preparavam — e assim consegui ver a festa em todos os formatos num único dia.

As figuras são muitas vezes mais altas do que as linhas elétricas, por isso à frente da procissão vai uma pessoa com uma longa vara de bambu com uma forquilha na ponta — serve para levantar os cabos descaídos e deixar o monstro passar por baixo. Às vezes inclinam a figura, ou a equipa inteira agacha-se ao mesmo tempo. Faz-se assim por toda a ilha — tanto nas aldeias como no centro de Denpasar.

A vara de bambu com forquilha — com ela levantam-se os cabos sobre a estrada enquanto os carregadores fazem passar a figura

As procissões das crianças são um prazer à parte. As crianças têm os seus próprios ogoh-ogoh, mais pequenos e mais simples, mas carregam-nos segundo todas as regras: em padiolas de bambu, aos gritos e com toda a seriedade. Os pais caminham ao lado.

As procissões infantis começam antes das dos adultos, ainda de dia. As figuras são mais pequenas, mas o entusiasmo não é menor

Se for de Ubud a Denpasar pelos seus próprios meios, aconselho a traçar o percurso pela estrada Jl. Raya Sibanggede — atravessa as aldeias da zona de Abiansemal. Pelo caminho haverá imensas figuras e os seus próprios mini-desfiles locais. De qualquer forma, seja qual for o percurso escolhido, não ficará sem ogoh-ogoh: nessa noite realizam-se em simultâneo mais de mil procissões por toda a Bali — cada banjar organiza a sua.

A estrada Jl. Raya Sibanggede através de Abiansemal — o percurso recomendado de Ubud a Denpasar no dia do desfile

A noite em Denpasar: o desfile principal

Ao cair da noite chegámos ao centro de Denpasar — ao cruzamento com a estátua de Catur Muka, junto à praça Puputan. É a «bancada» principal da ilha: é para aqui que vêm as melhores figuras da cidade. Cada figura é carregada por uma equipa de dezenas de pessoas, acompanhada por uma orquestra beleganjur — tambores e pratos, ao som dos quais os carregadores balançam e fazem girar os monstros.

O percurso está organizado assim: as figuras entram pelo lado da rua Jl. Gajah Mada, depois junta-se a rua Jl. Veteran — era de lá que saíam as figuras mais espetaculares. Todas dão voltas em torno da estátua de Catur Muka e, após algumas voltas, seguem para a rua Jl. Udayana e depois por outras ruas da cidade. Atrás das figuras, por essas ruas, move-se uma torrente viva de gente — e é possível simplesmente juntar-se a ela: caminhar atrás dos monstros e contornar com eles a estátua no cruzamento.

Mapa do percurso principal do desfile Ogoh-Ogoh em torno da estátua de Catur Muka em Denpasar
O percurso do desfile principal: entrada pela Gajah Mada e pela Veteran, voltas em torno da estátua de Catur Muka e saída para a Udayana

Com os horários, em Bali, há flexibilidade: em 2026, o início estava anunciado para as 19h00, mas na realidade as colunas só arrancaram perto das 20h00. Ainda assim, vale a pena chegar às 19h00 ou mais cedo — há imensa gente, e os melhores lugares junto à estrada esgotam depressa. Os mais decididos sentam-se mesmo junto à estátua: as figuras são carregadas à volta deles, é o epicentro de tudo o que acontece. Ao longo das ruas funcionam bancas e tendas com petiscos, água e bebidas.

Depois do início, as figuras são trazidas ao círculo uma a uma, e ao princípio tudo se desenrola sem pressa. Cerca de uma hora depois, perto das 21h00, começam a entrar pela rua Veteran as figuras maiores e mais imponentes. Com elas entram procissões com gongos e tambores balineses, soa a música, alguém acende tochas de mão — e a ação torna-se cada vez mais frenética. As figuras giram sobre o próprio eixo, as equipas de carregadores ora desatam a correr e aceleram, ora parecem travar batalhas, quase chocando os monstros uns contra os outros. Tudo isto se vê de qualquer ponto de onde se aviste o cruzamento principal. Mas atenção: a esta hora há ainda mais gente — à multidão parada junta-se a torrente que segue atrás das figuras. Tenha cuidado, numa massa assim pode haver esmagamento.

Em cada cruzamento, a figura é rodada três vezes no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio — acredita-se que assim se confundem os espíritos malignos, para que percam o caminho para as casas das pessoas. A construção enorme inclina-se sobre a multidão, todos gritam e, depois, uma explosão de aplausos.

Composições de várias figuras: batalhas de deuses e demónios mesmo por cima das cabeças dos espectadores

Demónio Ogoh-Ogoh gigante em fumo laranja por cima de uma multidão de smartphones no ar
Do fumo surge a figura seguinte — a multidão recebe-a com um rugido

Rangda e o fantasma de véu. A iluminação e as máquinas de fumo são equipamento habitual das grandes equipas

As figuras ficam imóveis em pleno salto ou golpe — e por dentro há apenas bambu e papel-maché

O guerreiro com cabeça de galo segura uma lâmina gigante, parecida com um taji — a espora das lutas de galos. Ao lado, o gigante prateado com o número de concurso

O demónio com focinho de javali — e o vizinho com os olhos iluminados a vermelho

O demónio careca com a lanterna e o monstro-tigre de tentáculos cor de laranja

Duende Ogoh-Ogoh sorridente de cabelo espetado agachado sobre a multidão noturna
O duende de sorriso trocista paira mesmo por cima das cabeças dos espectadores
Demónio Ogoh-Ogoh cinzento com chifres e caveiras e dois adolescentes com bandeiras
Bandeiras com o emblema do próprio banjar — cada equipa tem o seu estilo, até às t-shirts iguais
Demónio Ogoh-Ogoh a saltar com uma espada por cima de crianças de t-shirts pretas
As crianças da equipa seguem na plataforma junto com o seu monstro

Apesar de tudo, a atmosfera não é nada assustadora, mas sim festiva: famílias com crianças aos ombros, vendedores de bebidas e satay a abrir caminho pela multidão, toda a gente a filmar com o telemóvel. É a noite em que a cidade inteira está na rua.

Vendedor de bebidas com um tabuleiro por cima da multidão no desfile noturno de Ogoh-Ogoh
Os vendedores com tabuleiros circulam pela multidão a noite inteira

O que acontece aos monstros depois do desfile

Tudo isto dura muito tempo: em Denpasar, o desfile vai até cerca das 23h00 e pode facilmente prolongar-se. E há aqui um pormenor importante de que pouca gente avisa: sair do centro é difícil. Se estiver de mota e pretender voltar, por exemplo, a Ubud — metade das ruas de Denpasar estará cortada, e vai encontrar procissões por todo o lado, não só no círculo principal. A estrada em direção a Ubud, depois das celebrações, também fica cortada, e será preciso fazer um desvio.

Com táxis é ainda mais complicado: desaconselho vivamente ir a Denpasar de táxi, a menos que tenha combinado de antemão com um motorista concreto que o venha buscar. Chamar simplesmente um carro depois do desfile não vai resultar — todas as estradas do centro estão cortadas e o automóvel não consegue lá chegar. O plano sensato é um hotel em Denpasar por duas noites. Tenha em conta que o dia seguinte é o Nyepi: vai passá-lo no hotel, nada estará a funcionar, incluindo a entrega de comida ao domicílio, por isso abasteça-se de tudo com antecedência. Pelo que observei, no próprio dia do Ogoh-Ogoh os principais supermercados estiveram abertos até ao fim da tarde, e à noite estavam abertos até alguns Indomaret — as lojas de conveniência de cadeia que existem em cada esquina. Portanto, se se esqueceu de comprar alguma coisa, ainda terá hipótese de remediar. Mas no Nyepi não conte com isso: estará tudo fechado.

Segundo o cânone, os ogoh-ogoh são queimados depois da procissão — na maioria das vezes no cemitério da aldeia ou num terreno baldio. O fogo destrói tudo o que é negativo, tudo o que as figuras «recolheram» durante a noite. Na prática, nem todos são queimados: as figuras mais conseguidas dão pena, e por isso são guardadas nos salões comunitários, apresentadas em concursos ou vendidas. Em Denpasar, as melhores obras do ano são exibidas no festival Kasanga ainda antes do Nyepi.

Perdeu o desfile? Há um festival no parque GWK

Se as suas datas não coincidirem com o Nyepi, ainda há hipótese de ver os ogoh-ogoh. O parque cultural GWK (Garuda Wisnu Kencana) — aquele onde se ergue a estátua de 121 metros de Garuda e Vishnu — organiza, depois do Nyepi, o seu próprio festival de Ogoh-Ogoh: equipas de jovens trazem figuras de toda a ilha, carregam-nas ao som do gamelão pelo recinto do parque e competem por prémios. Em 2026, o festival realizou-se no final de março e reuniu milhares de participantes, e as melhores figuras ficaram em exposição no parque durante mais algumas semanas. Sobre o parque em si, escrevi um artigo dedicado ao GWK.

O próprio desfile é o meio de toda uma semana festiva: três ou quatro dias antes do Nyepi, os balineses realizam o Melasti, a cerimónia de purificação junto ao mar, para a qual se levam as relíquias sagradas dos templos. Por isso, os monstros nas bermas não são a única coisa que vai encontrar se chegar nestas datas.

E às seis da manhã a ilha desliga-se. O Nyepi são 24 horas de silêncio total: estradas vazias e aeroporto fechado. O essencial para o turista: não sair do hotel ou da villa, não fazer barulho e não acender luzes fortes; não planeie nenhuma saída para esse dia. A rede móvel pode ser limitada, mas o Wi-Fi deverá funcionar — confirme com o hotel ou a villa antes do check-in. O cumprimento das regras é vigiado pelos pecalang — a guarda tradicional das aldeias, de sarongues axadrezados. Depois do pôr do sol, a ilha apaga as luzes — e sobre Bali abre-se um céu estrelado como nunca se vê em mais nenhuma altura.

Na manhã seguinte é o Ngembak Geni, o «regresso do fogo»: os balineses visitam-se uns aos outros e pedem perdão pelas ofensas antigas. Começa o novo ano.

Informações práticas

Informações práticas

  • O quê: desfile Ogoh-Ogoh (Pengerupukan) — véspera do Ano Novo balinês
  • Quando: 2027 — 7 de março, 2028 — 25 de março, 2029 — 14 de março; procissões das ~18h00 até à meia-noite; as das aldeias e das crianças — a partir do meio-dia
  • Ponto principal em Denpasar: cruzamento de Catur Muka junto à praça Puputan (GPS: -8.6563, 115.2166), perto do Museu de Bali
  • Ubud: as colunas convergem para o palácio real Puri Saren Agung e para o campo de futebol no centro
  • Entrada: gratuita — é uma festa de rua, não um espetáculo com bilhetes
  • Como chegar: só com antecedência — às 16h00–17h00 as ruas dos centros já estão cortadas; a mota é mais prática do que o carro
  • Onde ficar: reserve o hotel com antecedência e para duas noites no mínimo — no dia seguinte (Nyepi) as deslocações pela ilha são proibidas
  • Aeroporto: no dia do Nyepi encerra por completo, não há voos — verifique as datas dos bilhetes

Dicas

  • Planeie dois dias. O desfile é só metade da experiência. O Nyepi, no dia seguinte, é a outra metade: abasteça-se de comida e não planeie sair do hotel. A internet pode ser limitada — confirme com o hotel de antemão.
  • Comece o dia na estrada a partir de Ubud. De dia, procissões das aldeias e das crianças em Mas, Batuan e Sukawati; à noite, o grande desfile em Denpasar ou Ubud.
  • Garanta o lugar cedo. Em Denpasar, junto a Catur Muka, os melhores pontos esgotam pelas 16h00–17h00. Depois das 18h00, as estradas do centro ficam intransitáveis.
  • Leve água e dinheiro em numerário. A comida e as bebidas de rua vendem-se a noite toda, mas os cartões não são aceites.
  • Crianças — sim. Os balineses vêm em família, e os monstros mais encantam do que assustam. Mas proteja os ouvidos: as orquestras tocam alto.
  • O código de vestuário é o habitual. Não é preciso sarongue — é uma festa de rua, não uma cerimónia de templo. Respeite as procissões: não atravesse à frente dos carregadores.

Em vez de conclusão

Continuo a não conhecer o hinduísmo ao ponto de ler cada figura como um balinês. Mas, na noite do desfile, isso não incomodou nem a mim nem aos milhares de pessoas à minha volta: esta música entende-se sem palavras. O Ogoh-Ogoh é um caso raro em que o principal acontecimento do ano na ilha não é feito para render bilheteira, mas pelas comunidades para si próprias: meses de trabalho por uma única noite e uma fogueira no final. Se puder planear a viagem a Bali para estas datas, recomendo vivamente que o faça: pode bem tornar-se o acontecimento mais marcante do seu ano.

Quando será o desfile Ogoh-Ogoh em 2027?

Na noite de 7 de março de 2027, véspera do Nyepi (8 de março). As procissões começam por volta das 18h00 e vão até à meia-noite; as das aldeias e das crianças, a partir do meio da tarde. Em 2028, o desfile é a 25 de março; em 2029, a 14 de março.

Onde é melhor ver o Ogoh-Ogoh?

O desfile de maior escala é em Denpasar, no cruzamento de Catur Muka junto à praça Puputan, para onde vêm as melhores figuras da cidade. Em Ubud, as colunas convergem para o palácio real. De dia, vale a pena percorrer as aldeias entre Ubud e Denpasar — Mas, Batuan, Sukawati: cada uma tem a sua própria procissão.

Quanto custa a entrada no desfile?

Nada — é uma festa popular de rua, não um evento com bilhetes. Só vai precisar de dinheiro para a comida e as bebidas de rua; leve numerário.

Os turistas podem assistir ao desfile?

Sim, há muitos turistas no desfile e os locais recebem-nos com simpatia. Não há regras especiais: roupa normal e respeito pelas procissões. Já no dia seguinte, no Nyepi, é proibido a toda a gente sair do hotel, incluindo aos turistas.

O que é o Nyepi e como afeta a viagem?

O Nyepi é o Ano Novo balinês: 24 horas de silêncio total logo a seguir ao desfile. O aeroporto está fechado, as estradas vazias e não se pode sair do hotel; a rede móvel pode ser limitada, mas o Wi-Fi dos hotéis costuma funcionar. Planeie os voos de forma a não calhar nesse dia e reserve o hotel para duas noites no mínimo.

De que são feitos os Ogoh-Ogoh?

A estrutura de bambu e rotim é revestida de papel segundo a técnica do papel-maché, depois recebe massa, pintura e roupa. A esferovite está proibida nos concursos desde 2015 — ao arder é tóxica. A equipa do bairro constrói a figura ao longo de um a cinco meses.

É verdade que os monstros são queimados?

Pela tradição, sim: depois da procissão, as figuras são queimadas para destruir o negativo que recolheram. Na prática, as melhores obras são muitas vezes preservadas — apresentam-se em concursos ou guardam-se nos salões comunitários até ao ano seguinte.

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