Barbaros — a aldeia dos espantalhos perto de Esmirna, Turquia
Barbaros é uma aldeia de espantalhos na estrada de Esmirna para Alaçatı. São dezenas: de fato, chapéu e gravata, como se entrássemos num filme surrealista. Se vais a caminho de Alaçatı ou Çeşme, tens de parar aqui. Em baixo, o meu relato do passeio pela aldeia.

Barbaros — a aldeia onde os espantalhos se tornaram arte
Barbaros (Barbaros Köyü) é uma pequena aldeia no distrito de Urla, entre Esmirna e a península de Çeşme. Vivem aqui cerca de 700 pessoas e, pelo que vi, mais ou menos o mesmo número de espantalhos.
Oficialmente, a aldeia tem cerca de 700 anos, embora se saiba que este local foi habitado há 5000 anos: muito perto encontra-se o túmulo de Barbaros Baskov, património arqueológico de primeira categoria. Antigamente, a aldeia chamava-se Sıradamlar — «filas de telhados» — pelas suas características casas de adobe com telhado plano, alinhadas ao longo de um ribeiro. O nome actual foi-lhe dado em homenagem ao almirante otomano Barbaros Hayrettin Paşa, como tantas outras aldeias na Turquia.
Mas ninguém vem cá pela história. As pessoas vêm pelos espantalhos — ou, como lhes chamam por aqui, «oyuk».

Os espantalhos de Barbaros
Em 2016, os habitantes da aldeia, juntamente com alguns que se tinham mudado de Istambul, inventaram o Festival dos Espantalhos — Oyuk Festivali. Queriam atrair turistas para que a aldeia não ficasse deserta. E resultou: Barbaros recebeu o título de melhor aldeia turística segundo a UNWTO, a organização de turismo das Nações Unidas.
O festival realiza-se todos os anos no final de agosto, mas os espantalhos estão cá o ano inteiro. Cada um é feito à mão: palha, caules de milho, serapilheira e roupa velha de alguém.



Cada espantalho é uma peça única. E cada um tem a sua personalidade
Um veste fato de negócios com gravata vermelha, outro tem um lenço verde com a cara pintada. Há casais, há grupos inteiros. Alguns seguram placas com provérbios e piadas em turco — pena não ter conseguido traduzir todos.



Alguns espantalhos são engraçados, outros metem mesmo um bocadinho de medo

Muitos espantalhos têm placas com inscrições. Num poste, por exemplo, há todo um grupo — e cada um com o seu letreiro, algo como «Deixa lá, que eu sou da aldeia e aqui as pessoas são fantásticas».

Arte de rua e instalações urbanas
Barbaros não são só espantalhos. As paredes das casas estão cheias de murais: num há uma figura com traje tradicional do Egeu, noutro umas asas. Sobre os velhos muros com tinta desbotada e videiras à volta, todos estes desenhos dão um encanto especial à aldeia.


Murais nas paredes de Barbaros

E ainda há uma moldura de televisor antigo embutida numa parede com a inscrição «Hayat kısa» — «A vida é curta». Pronto, é este o humor por aqui.

A árvore dos desejos e a «Paragem para contemplar o céu»
Em Barbaros existe o Dilek Oyuğu — um local para pedir desejos. Da árvore pendem tiras de tecido com mensagens, ao lado há espantalhos, e na placa lê-se: «Que os campos se encham de colheita. E o teu desejo?» A tradição de atar tecidos aos ramos é ancestral da Anatólia, e os espantalhos ao lado são o toque local.

E depois há o «Göğe Bakma Durağı» — literalmente «paragem para contemplar o céu». Um banco verde para nos sentarmos sem pressa.

Cafés, oficinas e «bater à porta»
Aqui as mulheres cozinham em casa e alimentam os visitantes. A tradição dos «çatkapı evleri» (casas onde se bate à porta) funciona assim: nas portas das casas há placas, tu bates, entras e comes comida caseira. Katmer (folhado com requeijão e ervas), patlıcan balığı (prato de beringela, apesar do nome «de peixe»), çalkama (carne estufada no forno) — tudo com produtos locais.
Na praça central e ao longo das ruas há vários cafés: Ebruli, Çağdaş, Baharin Kahvesi. Neste último preparam dibek kahvesi — café moído num almofariz de pedra. Vale a pena provar.

A oficina «Kirli Çıkı» (uma expressão turca que descreve quem parece modesto mas na realidade é rico) vende bonecos artesanais, cerâmica e lembranças. Aqui também podes experimentar fazer um boneco tradicional com as tuas próprias mãos: a oficina demora cerca de uma hora.

Barbaros Sineması — o cinema da aldeia
A aldeia tem o seu próprio cineclube: «Barbaros Sineması». A tradição cinematográfica em Barbaros vem dos anos 70. Os habitantes disseram-me que no verão projectam filmes ao ar livre e no inverno na biblioteca da aldeia. No muro de pedra da praça estão pendurados cartazes de clássicos do cinema turco — «Selvi Boylum Al Yazmalım», «Süt Kardeşler». Ao lado, um banco e um espantalho a fazer de bilheteiro.
Já agora, nesta zona filmaram-se várias séries turcas — portanto, a tradição cinematográfica por aqui é antiga.

Pormenores que encantam
Para além dos espantalhos, há imensos pormenores que nos chamam a atenção. Um catavento com galo sobre uma chaminé de pedra, loendros cor-de-rosa até ao telhado. O minarete da velha mesquita, rachado, com um pequeno balcão em ferro forjado. Pátios cobertos de videiras, com vasos pendurados e um espantalho entre os sardinheiros.


O catavento sobre a chaminé de pedra e o velho minarete

E à saída, um edifício amarelo da antiga farmácia (Eczane) com a entrada decorada, uma vedação colorida e pássaros na parede.

Como chegar
A partir de Esmirna
55 km, cerca de uma hora de carro. Sai pela autoestrada Esmirna — Çeşme, segue as indicações para Urla, depois vira em direcção a Gülbahçe e segue as placas para Barbaros. A aldeia fica junto ao Instituto Tecnológico de Esmirna (İYTE) — se vires o campus universitário, já quase chegaste.
De transportes públicos: autocarro nº 984 de Esmirna até Urla, depois autocarro local até Barbaros (horários: 06:10, 08:00, 15:30, 17:30 nos dias úteis).
A partir de Alaçatı
27 km, cerca de 25 minutos de carro em direcção a Urla. Barbaros fica literalmente a meio caminho — muito fácil parar se fores de Alaçatı para Esmirna ou vice-versa.
A partir de Portugal
Existem voos de Lisboa e Porto para Esmirna (Izmir), normalmente com escala em Istambul pela Turkish Airlines ou pela TAP via outra cidade europeia. O tempo total de viagem ronda as 6-8 horas com escala. Como cidadã da União Europeia, não precisei de visto: com o passaporte português podes entrar e ficar até 90 dias sem qualquer formalidade. Os preços indicados em liras turcas (TL) correspondem aproximadamente ao indicado em euros no artigo (~6-9 EUR por um almoço caseiro).
Informação prática
- Morada: Barbaros Mahallesi, Urla, İzmir
- GPS: 38.321893, 26.580879
- Entrada: gratuita (é uma aldeia habitada, não um museu)
- Quando ir: durante todo o ano, mas o ideal é primavera e outono. Festival dos espantalhos: final de agosto
- Tempo necessário: 1-2 horas de passeio, mais o almoço
- Comida: a partir de 200-300 TL (~6-9 EUR) por um almoço nos çatkapı evleri
- Google Maps: Barbaros, Urla
Dicas
- A melhor hora para fotografias — de manhã cedo ou ao fim da tarde. Ao meio-dia faz calor e a luz é dura, mas as sombras das videiras desenham padrões bonitos nas paredes.
- Entra nos çatkapı evleri — procura as placas nas portas. Bate, entra e come caseiro. Não é um restaurante, é literalmente a casa de alguém.
- Combina com Alaçatı — se fores de Esmirna para Alaçatı ou Çeşme, Barbaros merece um desvio de uma hora. Ou ao contrário, no regresso.
- O Festival dos Espantalhos realiza-se no final de agosto (normalmente 3 dias). Nesses dias há concursos, oficinas e concertos na aldeia.
- Leva dinheiro — nem todos os cafés e oficinas aceitam cartão.
Dica para fotógrafos: Barbaros é ideal para fotografia de retrato e cenas de género. Os espantalhos são «modelos» perfeitos: não se mexem, não pestaneiam, aguentam com qualquer luz. Os melhores enquadramentos: à sombra debaixo das videiras e junto aos muros de pedra. Uma grande angular dá jeito para as ruas, uma 50-85 mm para os pormenores e os «retratos» de espantalhos.
Perguntas frequentes
De carro, cerca de uma hora pela autoestrada Esmirna-Çeşme com desvio para Urla. De transportes públicos, autocarro nº 984 até Urla e depois autocarro local até à aldeia.
Não. Barbaros é uma aldeia habitada como qualquer outra, a entrada é livre. Só se paga pela comida nos cafés e pelas compras nas oficinas.
Todos os anos no final de agosto, normalmente durante três dias. Realiza-se desde 2016. Mas os espantalhos estão cá o ano inteiro, por isso podes ir quando quiseres.
No mínimo uma hora para o passeio pela aldeia. Se pensas almoçar numa das casas e visitar as oficinas, conta com 2-3 horas.
Se estiveres pela zona de Esmirna, Urla ou Alaçatı, sim. A aldeia fica mesmo na rota e não exige um grande desvio. A hora ou hora e meia que passares aqui não será tempo perdido.
O katmer (folhado com requeijão), o dibek kahvesi (café moído em almofariz de pedra) e a comida caseira nos çatkapı evleri — casas onde te dão de comer bastando bater à porta.
Sim, e é até muito recomendável. As crianças adoram: espantalhos, bonecos, oficinas para fazerem os seus. A aldeia é compacta, segura e sem carros nas ruelas estreitas.




