Acrópole de Pérgamo, Turquia — O que ver nesta cidade antiga perto de Bergama

Duas horas de carro desde Esmirna — e cheguei a Bergama, ao sopé da colina onde, há mais de dois milénios, se erguia uma das capitais mais poderosas do mundo antigo. No topo — as ruínas de Pérgamo, que quase ninguém visita, porque todos vão a Éfeso.

Templo de Trajano na acrópole de Pérgamo — colunas contra o céu, vista de baixo
Templo de Trajano — o principal monumento da acrópole. As colunas parcialmente restauradas já se avistam desde o teleférico

Pérgamo — a capital de que quase ninguém ouviu falar

Sinceramente, antes da viagem, a única coisa que eu sabia sobre Pérgamo era que o nome deu origem à palavra «pergaminho». Descobri que se tratava de uma cidade que, nos séculos III–II a.C., rivalizava a sério com Atenas e Alexandria. A dinastia dos Atálidas reuniu uma biblioteca com 200 mil rolos — a segunda do mundo antigo, depois da de Alexandria. Os egípcios, aliás, ficaram tão assustados com a concorrência que proibiram a exportação de papiro. Foi então que em Pérgamo inventaram escrever sobre pele tratada — e assim nasceu o pergaminho.

Depois, o último rei, Átalo III, decidiu legar todo o reino a Roma — sem guerra, pura e simplesmente. Desde então, Pérgamo tornou-se capital da província romana da Ásia. Hoje é Património Mundial da UNESCO, mas recebe muito menos turistas do que Éfeso.

Vista panorâmica da acrópole de Pérgamo sobre a barragem e o vale
Vista do topo da acrópole sobre a barragem e o vale do rio Bakırçay

Como chegar à acrópole

Conduzi desde Esmirna — cerca de duas horas por estrada em bom estado. Bergama é uma paragem conveniente se estiverem a percorrer a costa egeia da Turquia num carro alugado. No topo, na acrópole, há estacionamento, pelo que se pode subir de carro pela estrada sinuosa.

Voos desde Portugal: A Turkish Airlines e a Pegasus operam voos de Lisboa e do Porto para Esmirna, geralmente com escala em Istambul. O voo Lisboa–Istambul demora cerca de 4h30; a ligação Istambul–Esmirna acrescenta mais ~1 hora. Desde Esmirna, Bergama fica a 2 horas de carro ou autocarro. Alternativamente, podem voar até Istambul e apanhar um voo doméstico ou o autocarro noturno para Bergama.

A acrópole situa-se numa colina de 335 metros de altitude, mesmo por cima da Bergama moderna. Se não tiverem carro — há um teleférico (teleferik) desde a estação inferior no centro da cidade; a subida demora cerca de quatro minutos. Também se pode subir a pé, mas são 30–40 minutos com calor, e chegam às ruínas sem energia.

Teleférico para a acrópole de Pérgamo — vista aérea sobre Bergama
Teleférico para a acrópole — quatro minutos e estão lá em cima. Da cabina já se vê a dimensão da cidade em baixo

A bilheteira abre às 08:30. O bilhete pode ser comprado em euros ou em liras; aceita-se também o Müzekart e o Museum Pass

O que ver na acrópole de Pérgamo

Primeira impressão — a escala das ruínas

Logo após a entrada no recinto, percebemos como esta cidade era grandiosa. Por todo o lado — fragmentos de colunas, bases de muros, restos de alicerces. A área da acrópole é enorme e, para percorrer tudo, são precisas pelo menos duas a três horas.

Ruínas da acrópole de Pérgamo — fragmentos de colunas e estruturas em arco
A primeira coisa que se vê na acrópole — colunas e alicerces espalhados por uma área imensa
Fragmento de capitel esculpido com panorama de Bergama ao fundo
Capitel com ornamento vegetal — há centenas destes fragmentos aqui, e cada um merece ser observado com atenção

Galerias subterrâneas

Sob a plataforma do Templo de Trajano encontram-se corredores de pedra em arco. Na prática, são os alicerces: suportam toda a plataforma do templo no nível de cima. Mas quando se entra depois do calor escaldante da acrópole — é um alívio, menos uns dez graus. Ficámos lá cinco minutos simplesmente a refrescar.

Galerias subterrâneas sob o Templo de Trajano — frescas mesmo no auge do verão. As estruturas conservaram-se na perfeição

Teatro de Pérgamo — o mais íngreme do mundo antigo

Quando nos aproximamos da borda e olhamos para baixo — é de tirar a respiração. 80 filas, 10 000 lugares, tudo escavado na encosta quase na vertical. Já vi muitos teatros antigos, mas normalmente são largos e de inclinação suave. Este é estreito, íngreme, e a sensação é completamente diferente: como estar à beira de um precipício.

E outro pormenor interessante: o palco era de madeira e desmontável. Montava-se na altura do espetáculo e depois retirava-se — para não obstruir a vista sobre o vale. Ou seja, para os habitantes de Pérgamo, o panorama era mais importante do que os cenários do teatro.

Teatro de Pérgamo — 80 filas na encosta íngreme, vista sobre a cidade e o vale
Teatro de Pérgamo — 80 filas, 10 000 lugares, e uma das inclinações mais acentuadas entre os teatros antigos. A cidade de Bergama estende-se lá em baixo
Vista de cima do teatro de Pérgamo e panorama de Bergama
Vista do teatro a partir de cima — daqui percebe-se a inclinação vertiginosa. À direita — restos de terraços e muros

Templo de Trajano (Trajâneo) — o ex-líbris de Pérgamo

O Trajâneo é o único edifício na acrópole que foi parcialmente remontado. Os arqueólogos chamam-lhe «anastilose» — quando se utilizam os blocos originais e se recolocam no lugar. O templo foi construído durante os reinados de Trajano e Adriano (séc. II d.C.) e ergue-se no ponto mais alto da colina — visível de toda a parte.

É a imagem de postal de Pérgamo: colunas brancas contra o céu azul. Visitei ao meio-dia e a luz era dura, mas para fotografias é melhor vir ao final da tarde — a luz quente no mármore branco fica muito mais bonita.

Colunas do Templo de Trajano — vista ampla com colunata
Trajâneo — vista de sudeste. A colunata foi reconstruída com blocos de mármore originais
Vista ampla da colunata do Trajâneo e frontão do templo
A escala do Trajâneo torna-se evidente quando estamos ao pé das colunas — cada uma tem cerca de seis a sete vezes a altura de uma pessoa

Colunas do Trajâneo — cada uma montada a partir de tambores individuais. Através delas avista-se o vale e as colinas circundantes

Vista frontal do Templo de Trajano com colunas e frontão
Vista frontal do Trajâneo. Quatro colunas com parte do frontão — a imagem mais icónica do local
Colunata do Templo de Trajano vista de baixo — perspectiva ascendente sobre arquitrave e colunas
Se nos colocarmos mesmo por baixo da colunata e olharmos para cima — vemos a precisão com que os blocos de pedra foram ajustados

Pormenores do frontão e dos capitéis. A ordem coríntia — a mais decorativa das três ordens clássicas, com as características folhas de acanto

Colunata do Trajâneo vista através dos ramos das árvores
Trajâneo através dos ramos de uma árvore — um ângulo raro. As árvores na acrópole são poucas, por isso tomem nota de onde há sombra

Colunas de mármore e ruínas da biblioteca

Junto ao Templo de Atena encontram-se algumas colunas brancas restauradas, restos de uma colunata coberta (stoa). Algures aqui erguia-se a famosa biblioteca com 200 000 rolos. Dela restam apenas os alicerces, mas a história é fascinante: se acreditarmos em Plutarco, Marco António levou toda a coleção e ofereceu-a a Cleópatra.

Colunas de mármore branco na acrópole de Pérgamo — ruínas da zona templária
Colunas restauradas na zona do Templo de Atena e da biblioteca. O mármore branco contrasta com a relva queimada do verão

Esculturas romanas

Na acrópole encontra-se uma estátua decapitada de um guerreiro em armadura — provavelmente um imperador. A cabeça perdeu-se há muito, mas o resto conservou-se tão bem que se distinguem todos os pormenores: a couraça, a saia de tiras de couro e os medalhões com Medusa no cinturão. Vale a pena aproximar-se.

Estátua decapitada de um guerreiro romano em armadura na acrópole de Pérgamo
Estátua romana em traje militar — a cabeça perdeu-se, mas os pormenores da escultura em pedra conservaram-se magnificamente
Pormenor da estátua romana — cinturão com medalhões de Medusa
Primeiro plano do cinturão da estátua — medalhões com cabeças de Medusa. Pormenores que se podem contemplar longamente

Fragmentos de talha em pedra

Ao longo das paredes estão dispostos fragmentos de capitéis — topos de colunas esculpidos. Folhas de acanto, volutas, ornamentos — e tudo talhado à mão há dois mil anos. Podemos aproximar-nos e observar à vontade, sem qualquer barreira.

Fragmentos de capitéis ao longo dos muros — folhas de acanto e volutas da ordem coríntia

Muralhas e ruínas dos palácios

No topo encontram-se o arsenal, os palácios reais e as muralhas defensivas. Dos palácios, na verdade, restam apenas os alicerces — para os padrões das capitais antigas, eram modestos. Mas a partir daqui a vista abrange 360 graus: o vale, as montanhas, a cidade lá em baixo. Compreende-se facilmente por que os reis viviam precisamente aqui.

Parte superior da acrópole — restos de colunatas e torre. Passadiços de madeira acompanham o percurso principal

Muralhas defensivas da acrópole de Pérgamo em blocos de pedra maciços
Muralhas defensivas — blocos maciços que se mantêm de pé sem argamassa há mais de dois mil anos
Trilho entre ruínas e muros de pedra na acrópole de Pérgamo
Trilho pelas ruínas da cidade alta. Normalmente há menos turistas aqui — a maioria limita-se ao Trajâneo e ao teatro

Mapas e maqueta da acrópole

Pelo recinto estão espalhados painéis informativos com mapas — aconselho a fotografar um no início, depois é mais fácil orientar-se. Há também uma maqueta da acrópole sob uma cobertura de vidro — percebe-se imediatamente como era tudo no auge: templos, palácios, colunatas, telhados de telha vermelha. A escala impressiona.

Painéis informativos — vale a pena fotografar o mapa antes de começar o passeio, para não perder nada de importante

À esquerda — planta detalhada da acrópole com legenda. À direita — mapa de toda a Bergama com itinerários sugeridos e códigos QR para o Google Maps

Maqueta à escala da acrópole de Pérgamo no período de apogeu
Maqueta da acrópole — veem-se o teatro, os templos e as colunatas cobertas. Tudo isto foi outrora em mármore branco

O que mais ver em Bergama

A acrópole é a atração principal, mas não a única razão para visitar Bergama. Se tiverem tempo — vale a pena conhecer mais dois sítios:

Asclépio — centro terapêutico antigo, uma espécie de estância termal da Antiguidade. Aqui trabalhou Galeno — o médico cujos escritos serviram de referência durante mil e quinhentos anos após a sua morte. O Asclépio fica a cerca de 2 km do centro; a entrada é com bilhete separado ou Museum Pass. Para a visita, basta uma hora a hora e meia.

Basílica Vermelha (Kızıl Avlu) — um edifício imponente em tijolo vermelho mesmo no centro da cidade. Inicialmente era um templo dedicado aos deuses egípcios, depois tornou-se uma igreja cristã (uma das Sete Igrejas da Ásia mencionadas no Livro do Apocalipse). Através do edifício ainda corre um rio por túneis subterrâneos — bastante invulgar.

A Basílica Vermelha (Kızıl Avlu) — um dos edifícios antigos mais invulgares da Turquia. Mais no nosso guia detalhado

A própria Bergama — não tenham pressa em partir depois da acrópole. A cidade ao sopé da colina merece um passeio à parte: o mercado coberto Arastası com tapetes e antiguidades, a oficina de pergaminho onde ainda se fabrica à mão, casas antigas de pedra e um copo de compota de amora na quentura. Mais pormenores — no nosso artigo sobre Bergama.

Cidade velha de Bergama — mercado coberto e ruas encantadoras. Merece pelo menos umas duas horas. Guia completo de Bergama aqui

Informações práticas

  • Morada: Pergamon Akropol Ören Yeri, Bergama, İzmir, Turkey
  • GPS: 39.1317, 27.1840
  • Horário: 08:00–19:00 (verão, abril–outubro), 08:30–17:30 (inverno, novembro–março)
  • Entrada: ~€15 (ou equivalente em liras turcas). Aceita-se Müzekart e Museum Pass
  • Teleférico: ~€5–7 ida e volta, partidas a cada poucos minutos. Encerra com vento forte
  • Como chegar desde Portugal: voo Lisboa ou Porto → Istambul (Turkish Airlines, Pegasus, ~4h30), ligação para Esmirna (~1h). Desde Esmirna: carro ~2 horas, com estacionamento no topo. Sem carro: autocarro até Bergama (~2h, ~150–250 TL / ~€5–7), depois teleférico ou táxi para o topo. Desde Istambul: voo doméstico para Esmirna (~1h) ou autocarro noturno para Bergama
  • Visto: cidadãos da UE — sem visto até 90 dias (num período de 180 dias). Passaporte ou cartão de cidadão válido
  • Tempo necessário: mínimo 2–3 horas para a acrópole. Com Asclépio e Basílica Vermelha — um dia inteiro
  • O que levar: água (na acrópole não há sombra nem lojas), chapéu, calçado confortável

Dicas

  • Melhor altura para visitar — de manhã cedo (na abertura) ou duas horas antes do fecho. De manhã a luz é suave e há pouca gente; ao final da tarde — hora dourada nas colunas do Trajâneo.
  • Museum Pass compensa se planeiam visitar vários monumentos na Turquia — cobre mais de 300 museus e sítios arqueológicos em todo o país.
  • No verão faz muito calor na acrópole — a temperatura em Bergama pode atingir os 40 °C. Quase não há sombra. Levem pelo menos um litro de água por pessoa.
  • Combinem com o Asclépio — ambos os sítios estão incluídos no Museum Pass. De manhã — a acrópole (enquanto não está calor); depois do almoço — o Asclépio (tem mais vegetação e sombra).
  • Para fotógrafos: uma objectiva grande-angular é indispensável para o teatro e o Trajâneo. A melhor luz nas colunas — nas últimas duas horas antes do pôr do sol.

Dica para fotógrafos: o Trajâneo fotografa-se melhor a partir do canto sudeste — daqui veem-se a colunata, o frontão e o vale ao fundo. O teatro — de cima para baixo, para transmitir a inclinação. Para pormenores dos capitéis e esculturas — uma teleobjectiva.

Como chegar à acrópole de Pérgamo desde Portugal?

Voo de Lisboa ou Porto para Esmirna, normalmente com escala em Istambul (Turkish Airlines, Pegasus). Desde Esmirna, são cerca de duas horas de carro por boa estrada; no topo da acrópole há estacionamento. Sem carro: de Esmirna saem autocarros para Bergama (~2 horas); na cidade, o teleférico sobe ao topo em 4 minutos, ou pode-se apanhar um táxi pela estrada sinuosa.

Quanto custa a entrada na acrópole de Pérgamo?

O bilhete custa cerca de €15 (ou equivalente em liras turcas). O teleférico paga-se à parte — cerca de €5–7 ida e volta. Se tiverem o Museum Pass, a entrada na acrópole é gratuita, mas o teleférico é pago separadamente.

Quanto tempo é preciso para visitar a acrópole?

No mínimo duas a três horas para ver os pontos principais: Templo de Trajano, teatro, galerias subterrâneas, ruínas da biblioteca e muralhas. Se quiserem juntar o Asclépio e a Basílica Vermelha no centro da cidade — reservem o dia inteiro.

Quando é a melhor época para visitar a acrópole de Pérgamo?

A melhor altura é a primavera (abril–maio) ou o outono (setembro–outubro), quando o calor é mais moderado. No verão, cheguem logo de manhã à abertura, enquanto a temperatura é suportável. Para fotografia, a luz ao final da tarde é ideal — nas últimas duas horas antes do fecho.

Vale a pena ir a Pérgamo?

Sem dúvida, se tiverem interesse por ruínas antigas. Pérgamo é menos badalado do que Éfeso, mas não menos impressionante — e com muito menos turistas. O teatro e o Trajâneo estão entre os monumentos antigos mais fotogénicos da Turquia. E para quem já visitou Conímbriga ou o Templo de Diana em Évora, é fascinante ver como a mesma cultura romana se manifestou à escala de uma metrópole helenística.

Posso subir à acrópole a pé, sem teleférico?

Sim, pela estrada sinuosa a subida demora 30–40 minutos. Mas no verão é penoso por causa do calor e da falta de sombra. Também se pode subir de táxi — há estacionamento no topo.

Onde está o Altar de Zeus de Pérgamo?

O célebre Altar de Pérgamo foi levado por arqueólogos alemães no séc. XIX e encontra-se atualmente no Museu de Pérgamo em Berlim. Na acrópole resta apenas a plataforma-alicerce.

Preciso de visto para visitar a Turquia?

Cidadãos da UE, incluindo portugueses, não necessitam de visto para estadias até 90 dias num período de 180 dias. Basta apresentar passaporte ou cartão de cidadão válido.

Pérgamo ou Éfeso

Se tiverem de escolher entre Pérgamo e Éfeso — não escolham, visitem ambos. Mas se o tempo for limitado: Éfeso é escala e estado de conservação, a Biblioteca de Celso e as ruas de mármore. Pérgamo é menos turístico, com muito menos multidões, e as vistas do topo da colina são de um nível que Éfeso não consegue igualar. Daqueles lugares a que apetece voltar quando nos cansamos das multidões.

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